
Eu tenho algumas viagens que foram marcantes na minha vida. Talvez não tenham sido exatamente as melhores, ou as mais prazerosas, mas certamente foram aquelas que mudaram de alguma forma o que sou hoje, e que ficarão eternizadas na minha memória. O meu primeiro réveillon longe dos meus pais na Praia do Rosa, minha primeira viagem solo a Europa em 2008, quando descobri que viajar sozinha seria maravilhoso (Nova York, 1995), minha viagem solo a Boipeba e Jericoacoara em meio a perda de meu pai em 2022, a primeira viagem a Kemer com muita azaração em 2010.
Em novembro de 2024, eu tinha recém saído de minha viagem de niver com uma amiga querida em Cancun, que entregou muito mais do que o esperado: dias de sol e glória, a volta à paquera intensa (inclusive arranjei um presente de aniversário – um bofe dos mais desejados do resort), muitas amizades. Ou seja, uma viagem sem muito cunho intelectual, mas leve, divertida, e que me fez abrir a cabeça para alguns preconceitos que tinha de pessoas mais liberais.
Quando veio a Black Friday, me veio uma promoção de uma passagem para a Islândia, com disponibilidade nas datas do meu niver em 2025.
Eu já tinha pesquisado sobre a Islândia, visto alguns vídeos incríveis no YouTube, e nas conversas com meu pai no hospital, ele me falou que a Islândia deveria ser um país incrível pelo que ele viu na TV.
Eu tinha noção que se eu reservasse naquele momento, provavelmente já teria decidido como seria minha viagem de niver: solitária, pois dificilmente alguma amiga próxima minha teria coragem de já desembolsar a bagatela de uma passagem pra lá e num lugar tão inóspito.
Cancun, Caribe, Nordeste e praias em geral, seria mais fácil de ter companhia.
Para a Islândia, muito provavelmente seria uma viagem solo, e bem no meu niver, que gosto de estar rodeada de pessoas. Afinal, ainda acho esquisito não ter ninguém junto para celebrar minha data. Eu agora sou time das mulheres que viajam sozinha, mas prefiro viajar em grupo em Reveillon e meu niver. Meu último aniversário onde passei sozinha foi justamente em 2008 quando fui sozinha para a Europa pela primeira vez. E não foi intencional: minha amiga que seria minha companheira de viagem voltou para o boy dela de última hora e desmarcou.
Mas não sei porque, me deu uma urgência de fechar essa passagem. Deu 5.500 reais, incluso bagagem despachada, com uma escala no Canadá.
E tem desses momentos na vida, que a intuição é tão forte, que sem pensar demais, eu já reservei e paguei minhas passagens e minha hospedagem na Islândia. Como reservar um final de semana na praia paulista.
Nos dias que antecederam a viagem, me senti um pouco aflita e insegura, afinal minhas amigas estavam indo na mesma época para destinos mais solares, badalados e animados, como Ibiza e Paris.
Me imaginei passando 8 dias enfurnada no hotel, comendo doces enquanto fazia um frio de lascar. Como não ia ficar em hostel, me imaginei perambulando pelas ruas geladas de Reykjavik, sozinha. Pelo menos podia fazer minhas 10 refeições por dia.
A viagem de ida foi tranquila. 10 horas até Toronto, e como a Air Canada gentilmente me ofereceu para despachar a bagagem de mão (o que se pensar bem é um risco dobrado, pois imagina chegar na Islândia só com a roupa do corpo e a mala nem…). Paga-se uma tarifa de 10 dólares e o trem sai do aeroporto e te leva para o Centro da cidade, onde você faz muita coisa a pé. Estava um calor gostoso, mas eu estava encapotada com meus 2 casacos de frio, bota e tal.
Parei num parque, tirei meu sanduba que peguei da sala vip do aeroporto e fiquei apreciando a vida. Esquilinhos fofos (e em Toronto eles são pretinhos). Casais apaixonados de todas as etnias (sim, lembrei que o Canadá é um país de imigrantes). De lá , fiz tudo a pé: CN Tower, Dundas (tem o shopping Eaton Centre), St. Lawrence Market. Voltei cansada, feliz e sem ligar que já estava sem banho há 24 horas e ainda pegaria um voo de mais 8 horas até Reykjavik, a capital da Islândia.
Dormi absurdamente e cheguei em Reykjavik pontual às 08:00 da manhã. Friozinho ok de 10 graus e devo dizer que a primeira impressão não foi das melhores. Apenas táxis caríssimos para levar até o hotel (150 euros para 30 min de corrida) e a opção mais em conta era um busão que te levava até o centro da cidade, e mais um extra para levar até o hotel. Quer dizer, próximo, porque na Islândia nada é super personalizado não. Paguei a bagatela de 47 euros com pessoas mal humoradas, e o bus me deixou não na frente do hotel, mas na parada de bus No. 1 que era a 5 minutos a pé. De2 malas e mochila, chovendo, sem conhecer o lugar, o lugar deserto e era sábado e o centrão da cidade.
O hotel era simples, limpo, e basicão. O Central Plaza tem várias unidades na cidade, e o meu fica bem do lado de uma das pracinhas principais, com acesso a pé a todas as principais atrações, como a famosa rua do arco íris, a igreja Hallgrimskirkja, a escultura The Sun Voyager e a Harpa, um complexo de museus, shows e exposições.
Delícias de viajar sozinha: fazer tudo no seu ritmo. Como ia ficar na cidade 8 dias e o pessoal do hotel gentilmente me cedeu o quarto mais cedo, me dei o direito de tomar um belo banho depois de 35 horas sem, e dar um belo dormidão. Acordei as 2 da tarde morrendo de fome, e fui explorar a cidade.
Fui ver a tal igrejinha que aliás, é belíssima, flanei pelas ruas cheias de lojinhas e sim, souvenires, descobri um mercado de pulgas e fui conferir se o Waffle e os doces de marzipãs do Mokka Kaffe eram tão bons quanto os YouTubers diziam. E é mesmo. Fiz amizade com o povo local, fiquei umas duas horas batendo papo. Dizem que os nórdicos são frios e distantes, mas eu já achei o povo local uma simpatia. Fui na Harpa e realmente é o ponto mais instagramável do lugar. Em um dia eu já tinha feito 90% da cidade. Mal eu sabia que seria pouco e que se pudesse, eu ficaria um mês …
Em suma, eu fiz uma viagem FreeStyle, ou seja sem roteiro definido nem muito preparo. Fui em setembro porque o tempo é mais ameno e já há alguma chance de ver Auroras Boreais e Baleias. Cheguei no lugar, e o que tinha disponível e ao meu alcance eu fiz. E todos os dias eu tive algo divertido, inspirador, até transformador.
No primeiro dia, eu fechei o passeio para ver a Aurora Boreal. Antes, eu passei na famosa barraquinha do Hot Dog deles (que aliás, voltei todos os dias) . Foi um micão. O hot dog não, que é delicioso, mas a tal da excursão de caça à Aurora Boreal. Achei Armadilha de primeira grandeza de turista. Paguei 100 euros para ir num busão , rodamos 1 hora e vimos uma manifestação no céu que pelas lentes de um Iphone , vira Aurora Boreal e rende as fotos para o Instagram. O que me motivou a fechar o passeio no primeiro dia foi que : disseram que teria as melhores condições para avistar a Aurora e se não víssemos ela, poderíamos ir voltar todos os dias sem pagar a mais até avistarmos a bendita. Quando fui remarcar, a empresa justificou que a Aurora aconteceu de fato e não iria me deixar de novo. Fato: a Aurora que eles dizem que aconteceu foi umas nuvenzinhas brancas no céu se movimentando em milímetros de segundos. Só o Iphone mesmo para contradizer minha versão e ainda com nível de saturação máximo nas fotos.
Essa foi a única decepção da viagem. Nos outros dias , eu alternei passeios confortáveis e até em preços razoáveis (60 euros para passar o dia inteiro vendo paisagens incríveis e de fácil acesso, que se chama Golden Circle e visita paisagens incríveis, de filme), e dias de ficar à toa na cidade.
Quer dizer, o meu à Toa na cidade: descobrir com amigos recém formados na viagem um complexo de termas com preço justo no centro da cidade, um mercado incrível de comidas, Uma Aurora Boreal no meio da madrugada e de graça, e 10 a zero naquela chinfrim do passeio de 100 euros.
E as paisagens incríveis eu digo de boca cheia que são incríveis mesmo. De cair o queixo. De te deixar emocionada e pequena diante de um mundo tão exuberante e avassalador.
Eu tomava o café da manhã no hotel que aliás, era bem farto com ovos, bacon e frutas, e flanava pela cidade, descobrindo coisas gostosas todos os dias. Um restaurante tailandês, um supermercado novo, uma lojinha de artesanato realmente bacana, vários cafezinhos da tarde deliciosos.
O bom de ficar numa cidade vários dias é que você se permite fazer coisas quase locais . Eu peguei meu tênis, e fui dar uma corrida de 7 km , orgulhosa dos turistas me olharem quase como uma islandesa da Shopee correndo no frio. Nesse dia, eu já tava feliz de ter feito esse percurso, e só parei porque avistei um barco que dizia Whale Watching (observação de baleias). Era um dos meus sonhos. Eu tinha até desencanado, porque tinha conhecido uma família de canadenses no passeio do dia anterior, e eles me disseram que as bichinhas já tinham migrado.
Fui lá averiguar, haveria possibilidade de remarcar sem custo caso as bichinhas não aparecessem, e o barco saia em 3 minutos. Eu tava só com a roupa do corpo (alias, pouco vestida para ir ver avistar Baleia em alto mar), mas estava com meu cartão Wise. Era o sinal. Paguei, me deram um Vonal para aguentar o balanço do barco e fui. Vi 5 baleias, agitando as nadadeiras, mergulhando e mostrando sua famosa cauda, dando o esguichinho. Nem o vento cortante e o frio intenso em alto mar me fizeram perder meu humor.
Passei meu aniversário cantando no meio da rua com 7 brasileiros e portugueses , amigos de pub (aliás tem pubs incríveis em Reykjavik e sim, a vida noturna lá pulsa), e acabamos a noite cantando evidências num Karaokê fuleiro com belgas, alemães e franceses.
Foi uma viagem onde me permiti me mimar dos jeitos que tinha vontade: ia para o pub quase todos os dias (sim, eu ainda tenho fogo no rabo), comer quase todas as comidas gostosas que a Islândia realmente tem (aquele iogurte deles delicioso, o tal cachorro quente deles que é muito bom mesmo, a sopa de frutos do mar, o fish and chips que são só deles, vários chocolates com marzipã que fiz estoque para o Brasil. Barato não é, mas vale), ver paisagens incríveis que digo, é muito melhor ao vivo do que na tela do celular. Vocês não tem idéia da magnitude que é os glaciares, as cachoeiras, os Geysirs, até verem pessoalmente.
Ainda teve surpresinhas deliciosas, como ver finalmente as baleias amigas (e fui duas vezes), e ainda um finlandês querido para brindar comigo meu final de aniversário.
O melhor eu deixei para o final: a afirmação completa de como é bom demais viajar sozinha e saber que mesmo num lugar que é considerado o fim do mundo, você consegue se desenrolar. Eu tive a sorte de encontrar uma turma de brasileiras e portugueses muito animada na viagem, e logo nos primeiros dias. Cada um estava em um hotel, em um hostel. Tinha dia que cada um ficava por conta, e daí eu flanava pela cidade e pelos passeios no meu ritmo. E tinha dia que a gente se encontrava (quase todos os dias) para fazer uma atração que nem sabia que tinha interesse (visitar um mercado local, subir na torre da Igreja famosa, caçar a Aurora Boreal a pé, e sim, ir muitas vezes no Pub Hús máls og menningar, e acabar a noite com um hot dog. Eu ia dormir cansada, esgotada, mas feliz e ansiosa pelo dia seguinte.
Nem sempre a viagem tem que ter um acontecimento único para se tornar marcante. Viagem perfeita é aquela que te faz sentir que a vida merece ser vivida. Bjos no coração. Que vocês possam experenciar todos esses tipos de viagens em suas vidas.