mamãe

Eu queria ter escrito esse texto no Dia Internacional da Mulher, mas a inspiração só me veio no domingo seguinte.  É minha singela homenagem e declaração de amor por um público tão distante da minha pessoa, porém que de alguma forma, apenas por ser mulher, consigo compreender em partes: AS MAMÃES.

Fui num circo montado no Parque do Povo, e de uma expectativa zero, acabou me surpreendendo como um espetáculo de qualidade e inspirador.  Apenas um porém: na plateia, um adolescente reclamava em voz alta dos atores e do porquê estava ali perdendo seu tempo. Não chegou a estragar o momento, até porque ele se calou rapidamente. Para quem, como eu, tem o dom de atrair crianças birrentas e chorentas para voos longos, viagens intermináveis e salas de espera infinita, isso é nada. Uma brisa.

Ao sair do circo, me deparei com a família do aborrecente: a mamis, o papis, o filho menor, e o tal do jovenzito.  Enquanto o papis e o irmão menor faziam cara de paisagem, a mãe passava um sermão  soberbo em cima do pentelho.  Um sermão como há tempos não via. Sim, porque com toda essa polêmica de não poder bater, de não repreender, temos hoje jovens que nunca tomaram um tabefe na vida nem bronca em público. E são os tiranos de amanhã. Olhei aquilo absolutamente ENCANTADA.

Em suma:

“- Enquanto você viver em nossa casa, sob o teto que eu sustento, você vai fazer sim os programas que nós decidirmos”

– “Hoje a tarde fiquei a sua disposição, e agora vem fazer essa desfeita só porque é programa que o seu irmão queria ir?”

– “Ali é um espaço público. Tem gente que saiu de muito longe para poder ver, e você atrapalha o lazer dos outros só porque está emburrado?”

– “- OLHA PARA MIM ENQUANTO ESTOU FALANDO! Eu pago sua educação, seus estudos, seu lazer e sua comida. Se não quiser, vai viver como indigente. E AI DE VOCÊ SE FIZER ISSO DE NOVO.  E sabe a festa da semana que vem? Não vai! Pode já cancelar com seus amigos”

Bem, no final, o pai passou a mão em cima da cabeça do chatonildo, e o levou para pegar o carro, para livrá-lo de mais bronca.

Não aguentei. Cheguei perto da mamãe coragem e desferi um: “Posso te fazer um elogio? Nem te conheço mas vi o que aconteceu e admiro que ainda hoje há mães que não são medrosas e nem preguiçosas para realmente educar seus filhos. Parabéns!”.

Ela abriu um sorriso sincero e me devolveu a gentileza. Me disse que às vezes dói o coração, fica com cara de megera perante os desconhecidos, mas que acha que é a responsável  em  educar seu filho para o mundo. Ainda mais com o maridão panaca, que muito conveniente, faz sempre o papel de bonzinho da história. E ainda completou: trabalha em jornada integral, igual ao marido.

Me despedi, desejando toda a força do mundo para ela, e cheguei em casa cheia de dúvidas e anseios, pensando em todas as minhas conhecidas que são mães. Que mágica aquele circo heim? Por um momento consegui passar, eu como solteira convicta, alguma mensagem de amor e compreensão à mamãe.

Admiro vocês pracaralho viu.

Dificilmente vou conseguir passar com exatidão o que vocês passam diariamente, porque não sou mãe e não pretendo ser. Apenas como mulher, tento criar essa empatia e imaginar o seu cotidiano. Vamos lá.

Você acorda cedo para se certificar que seu filho tome um café da manhã nutritivo e saudável. Leva-os à escola. Volta para trabalhar. Pode ser que você busque ele, pode ser que contrate uma van. Trabalha o dia inteiro, com todos os percalços de uma assalariada. Depois busca o filho Depois cuida do almoço. Depois cuida do jantar. Atividades para ele se ocupar. Lição de casa. Trabalho da Escola. Agenda das festinhas dos colegas. Você ainda tem que terminar aquela apresentação para o board no dia seguinte.

Se fosse só isso, beleza. Mas tem os poréns: filho ficou doente. Filho brigou na escola e mordeu o coleguinha. Tá sofrendo bullying. Tá vomitando. Começou a maltratar o irmãozinho menor. Tá andando com um coleguinha meio suspeito de caráter.  Tá com problema em aprender certa matéria. Tem pesadelo de noite.  Quer aprender a tocar um instrumento. E por aí vai, uma infinidade de poréns.

E ainda tem a entrega de metas do mês. A realização do evento para 300 pessoas. A entrega da pauta. Da proposta para o cliente importantíssimo. Do projeto que lhe consome há 4 meses.

Ok, vamos combinar que talvez alguns maridos ajudem igualmente nas tarefas de casa e na criação dos filhos. Não são todos, não são a maioria. Pelo menos, conheço alguns e beijo no coração deles.

Mas conheço tantos que se foram, que visitam os filhos 2 vezes por ano e não pagam pensão, que acham que o dever é da mulher e não dele.

Mesmo as migas que têm uma boa condição financeira e conseguem pagar babás e ajudantes, possuem uma carga de trabalho mental e de constante estado de alerta para ver se o filho está ok. Tem que dar bronca sim quando a criança passa dos limites. Tem que dar exemplo, tem que repensar como falar de uma forma que ela aprenda, sem perder o amor.

E ainda assim, depois de tudo isso, ainda exibir um sorriso e dizer que é a melhor coisa do mundo ser mãe.

Eu digo: ainda bem que os seres humanos são diferentes um dos outros. Eu, por mim, jamais terei filhos, por N razões e motivos. Sou bem resolvida com minha decisão, mas não proclamo que é a coisa certa de se fazer para todas as mulheres. Ainda bem, porque o mundo ainda tem uma porção de mulheres dispostas a encarar as dores e delicias de uma maternidade  para dar continuidade à raça humana.

Termino aqui esta crônica fazendo 2 pedidos à mulherada:

PRIMEIRO:  PARA AS MIGAS SOLTEIRAS:  você, como amiga solteira, se coloque no lugar de sua amiga casada e ou com filhos, para entender as angústias dela. Vá jantar uma vez com a família toda dela, para ver que os gastos dela são multiplicados por 3, 4 e não é tão fácil montar uma viagem como é para você. Até a ida a um restaurante é coisa para se planejar: desde um gasto que se multiplica até uma criança com serias restrições alimentares.  Passe um dia com ela e veja que quando a criança tá com 39 de febre, não tem espaço para piada, cinema, encontro com as amigas que estava marcado há um tempão.  E não adianta jogar a culpa nos maridos, etc. Ela pegou para criar e ela vai tomar conta pra si.

Hoje, aos 41 anos, me sinto mais flexível e um tiquinho mais sábia para manter as amizades com amigas que se tornaram mães. Ao se imaginar no lugar delas, você vê que não custa nada você convidá-la para sair, para jantar mesmo que seja sempre, todas as vezes partir de você. Não ligar se teve que desmarcar um programa, que ela não foi no seu aniversário, que não dá mais para viajar juntas, que os encontros escassearam. Qualquer contato ou encontro, é muito mais trabalhoso e árduo para elas, acreditem nisso.

 

SEGUNDO: PARA AS MÃES:  à mulherada que são mamães: nos olhem, nós, solteiras, sem filhos, com carinho e como uma irmã.  Não nos julgue, e não nos considere inferiores, como muitas ainda o fazem. Não somos suas concorrentes, e se tiver paciência conosco também, seremos suas melhores amigas. E principalmente: não digam “Você não sabe, porque não é mãe”. Isso é terrível, conselho de  verdade.  Eu tenho uma parente que após se tornar mãe, falava isso em 90% das situações. A maioria, sem necessidade. Ganhava inimizades e antipatia. Quando conversei francamente e disse a ela que isso machucava muita gente, ela se espantou, mas aceitou a crítica e nunca mais disse isso.

Explico: quando uma conhecida minha a aconselhou a procurar um professor especializado para a filha dela, ela devolveu com um “não tenho tempo como vocês, solteiras,  se você tivesse filho saberia disso”. O caso é que minha amiga, em especial, não podia ter filhos biológicos. Bola fora heim?  No meu caso, que não pretendo ter filhos, talvez o estrago fosse menor, mas já teria um desprezo por ela.

Eu sei que as mamães costumam receber opiniões e conselhos muitas vezes desagradáveis e inúteis, de pai, de mãe, de sogra, de amigas, e isso enche o saco por muitas vezes. Mas tentem ter a mesma paciência que as amigas solteiras têm com  vocês: todas nós vamos ganhar com isso. Enfim. Um abraço do tamanho do mundo para todas as minhas amigas mamães, coragem, e que vão povoar o mundo com seres humanos melhores do que os que estão hoje na Terra.mamãe