travel corona

Confesso que antes da Pandemia do Coronavírus assolar o mundo e meu país, o Brasil, eu tinha uma rotina intensa de viagens.

Nos últimos anos, a minha média anual eram 5 a 6 mini viagens (de 2 a 5 dias para algum destino nacional, e 2 viagens longas internacionais (pelo menos 10 dias cada).

Sim eu faço isso com meu dinheiro ganho e não herdado. Sim, eu não tenho vergonha nenhuma e nem deveria me envergonhar.Minha renda é só para mim, não tenho filhos, por opção e pelo destino. Economizei bastante  e trabalhei muito até meus 40 anos, e hoje tenho uma rotina de microempresária feliz e que trabalha remotamente às vezes, com algum eventual projeto mais longo ou um sonho de novamente abrir um comércio.

Cercada de muitas dicas, vários sites e blogs de viagens e alguma inveja alheia que não faz bem, viajei muito nesses anos. Parece e é sinceramente uma rotina de blogueiro de viagem. Emenda uma viagem na outra, com o cuidado logicamente de um budget controlado.

Com toda essa pandemia, fui obrigada a me confinar, e não reclamo. Eu posso ficar quietinha na minha casa e honrarei todas as minhas contas, que confesso, deram uma bela diminuída com a quarentena. Fico triste e chateada mesmo é pelas minhas amigas médicas que são obrigadas a se isolar de sua família para fazerem o seu trabalho, e nem assim serem reconhecidas como merecem. Fico triste pelas pessoas que não podem se isolar, porque precisam pagar as contas do mês e colocar comida na mesa da família.

Bem, daí sobra tempo para refletirmos sobre nosso modo de viver e de contribuir para o mundo. Na verdade um bocado de tempo, principalmente para quem não tem filhos nem animais de estimação  (eu admito: não tenho nem um cacto e nem um tamagochi para falar de meu em casa. Sou eu, eu mesma e as mosquinhas de alimentos que proliferam como pestes).

Pensei no tema viagens: as pessoas que conheço geralmente me indagam se não estou enlouquecendo por não poder viajar por enquanto. Cancelei 2 viagens pequenas por motivos óbvios (com um péssimo atendimento e resolução da Latam e do maior hotel de Boipeba), mas enfim, a roupa suja lavarei em outro texto mais oportuno.

Para falar a verdade, não. Faz falta? Sim. Mas perto das tragédias que o CoronaVírus  alastrou no mundo, nem parei para pensar nisso como uma grande perda.

Penso como vulgarizamos as viagens. Raciocinem comigo.

O que deveria ser e é um milagre do ser humano, um feito a ser celebrado e sonhado, virou um lugar comum, um motivinho a mais para encher o feed do Instagram.

Há uns 25 anos atrás, quando não existia a internet em larga escala, a gente viajava, mas principalmente na expectativa e no sonho.

A gente comprava a revista Viagem e Turismo e se deliciava com os relatos de destinos, que alguns nos apeteciam, outros apenas atiçavam nossa curiosidade. Como eu gostava de ver os diários de viagem, e muito bem escritos.

E fazíamos planos. Uma viagem era cara, muito cara. Para quem já viajou de Varig e Vasp com eu, sabe que na nossa época (anos 80, 90) era diferente. Havia um glamour todo de ir ao aeroporto. As refeições nos aviões eram completas, não importando se era ponte aérea para o Rio ou viagem de 10 horas para Paris.

Tudo exigia um rígido planejamento: não existia booking para termos as várias opções de hotel. Ficávamos na mão de agencias como Dimensão, Soletur, Agaxtur. Não tinha email ou whatsapp de contato do gerente do hotel.

Comprar dólar e euro? Com muitos meses de antecedência, com poucos bancos.

Então era no máximo 1 viagem internacional por ano, e umas 2 nacionais. Isso que vim de uma família de classe média alta.

Tinha todo o charme do pré viagem  – de comprar roupa para compor o figurino, de pegar dicas com quem já foi, de pesquisar em enciclopédias e revistas sobre o destino. E sim, de apertar o cinto porque ia uma grana animal nisso.

E o charme do pós: imprimir as fotos que eram um mistério total nos 36 poses da Kodak, contar para os amigos, comprar um souvenir para chamar de seu, até porque não tinha Facebook ou Instagram para ostentar.

Eu lembro de todas essas viagens pré internet, de todas as sensações de ver um aeroporto pela primeira vez, das trapalhadas com idioma e caminhos errados e de taxistas safados.

Como é hoje? Melhorou? Facilitou? Sem dúvida. Mas…

Em 30 minutos, a gente consegue fechar uma viagem. Compra a passagem pelo site, reserva o hotel online, olha os vídeos no youtube, pesquisa no Google e voilá!

Sabemos as palavras básicas de idioma, sabemos a hora local, sabemos quais bairros a evitar, sabemos as comidas mais instagrameáveis e as frases de efeitos dos YouTubers.

Preparativo zero. A gente enche a cara na véspera e vai viajar de ressaca. Depois fica no primeiro dia que nem um zumbi, atentada apenas para alimentar o feed do Instagram. Mala faz na hora, até porque parece cafona admitir que se preparou toda para a viagem. Besta isso, né? A gente faz a mala na véspera para se passar de cool, de desencanada, de “tenho mil coisas mais importantes a fazer”.

Durante a viagem, aquela agonia e desespero de tentar tickar todos os lugares imperdíveis recomendados pelos influencers.

E na volta, as comprinhas básicas da H&M e da Uniqlo que não tem no Brasil, porque ficou cafona comprar souvenirs de viagens.

Sabe aquela história de quem é louca por chocolate e na Páscoa se entope e depois não quer ver o docinho por 1 ano na sua frente?  Por incrível que pareça, acontece com as viagens. É um pecado banalizar e pasteurizar essa atividade que deveria ser única, memorável. Experimente ir 2X para o Aeroporto no mês. Acabou o encanto, sobra o feed no Instagram.

Me parece errado hoje, mais do que nunca, tickar todos os destinos do mundo porque a vida é uma só.  Me parece errado ir para Nova York 5 vezes em 2 anos (como já cheguei a fazer, vamos lá ser honestas) porque tá, podíamos. Me parece muito, muito, muito errado ir para um mega resort nos destinos antes considerados intocados, sabendo que eles vão um dia destruir a cultura e natureza local (vide o imenso complexo hoteleiro que vai destruir Boipeba assim como fizeram com Itaparica. O Club Med sumiu e sobrou um povoado poluído e cheio de criminalidade). Isso para não falar do urso polar que foi abatido em 2018 para proteger os ricos turistas de uma empresa alemã de cruzeiros. E que raios eles estavam fazendo lá?

Quando a pandemia acabar, certamente vou querer viajar. Talvez um pouco menos. Talvez deixar de visitar lugares que são lindos no instagram mas tratam mal o turista (hello Nova York). Deixar o conforto de um resort de lado e ir para uma pousadinha de quem vive lá há 30 anos e sim, são donos do local. Aliás, já digo de primeira: mil vezes a pousada de 4 quartos da gringa que é meio mal humorada mas cuida de todos, do que o hotel de 100 quartos confortável que finge que não houve pandemia para tentar não perder o cliente.

Alguns destinos eu vou voltar , não nego. Em Boipeba quero comer a lagosta daquele tio que pesca apenas para seu sustento, como o faz há mais de 40 anos, e pagar para os meninos de lá levarem minha mala por 5 metros de distância da pousada. E alimentar os cães e gatos que agraciam essa ilha de magia.

Haverá sim as viagens internacionais (até porque o resort de solteiros que amo fica fora do Brasil e não pago 5 dígitos para ter recreação infantil e piscina com xixi alheio) e não há uma cidade mais bela no mundo (e com tantas guloseimas) para mim do que Paris.

Haverá um tanto de luxo se depender das viagens com meus pais, porque sim, eles são rabugentos e com uma certa idade e querem uma acomodação conhecida e de conforto super (minha mãe é a louca do cruzeiro e não há pandemia que a segure)

Mas sim, haverá uma mudança significativa na forma como viajo. Será menos bagagem em excesso (mesmo que seja pros EUA), e mais lembrança na mente. E se puder, porque não um pouco de ambição pessoal, tocar a vida das pessoas com quem encontrarei por aí.  Beijos no coração. Que vocês também mudem a forma de viajar.

Aí vai a frase brega do texto, mas que tem a ver sim! Vamos viajar mais no coração e menos no Instagram, por favor.