Em virtude dos últimos ataques a asiáticos no mundo e também no Brasil, resolvi mexer na minha memória para concluir o que passei de preconceito na minha vida como uma descendente de japoneses.

O mundo está louco. O ex presidente americano ressaltou em vários de seus discursos oficiais o “vírus chinês”. Que sim, veio de Wuhan. E foi propagado por todas as cias aéreas, de todas as nacionalidades. Quem trouxe o vírus para o Brasil foi um italiano. Nem por isso vou atirar pedras nos meus queridos colegas italianos.

Talvez a China deva ser sim investigada pela sua negligência de seus governantes de obstruir informações importantes sobre o vírus  e sim deva ser punida com ajuda humanitária e financeira, afinal é a segunda maior potência econômica mundial.

Contudo  matar idosos desconhecidos na rua apenas porque possuem olhos puxados é algo totalmente irracional e vindo de mentes doentias e que merecem prisão imediata. E isso está acontecendo nos EUA, na Europa e até no Brasil.

Aqui vai meu relato de quando me senti “diferente” e discriminada. Foram poucas, mas foram marcantes.

Infância – Nada. Eu era a japonesinha meiga e de cabelos cacheados e sempre fui um sucesso entre as mães.

Adolescência – Dos 08 aos 13 anos eu lembro  claramente. Estudei no Pueri Domus, uma escola de elite e no qual havia pouquíssimos orientais e negros. Na minha classe, eu era a única entre 60 crianças. Nunca senti nenhum racismo por parte de adultos, mas de meus coleguinhas…

Não era algo gratuto. A gente tinha umas gangues (isso mesmo, inocência infantil só nos filmes). Quando ex amiguinhas ou inimigos queriam me atingir, me chamavam de JAPONESA com um tom bem depreciativo. Diziam que meu tom de pele era de doente, de cor de bosta.

Não foram muitas vezes. Mas foram vezes suficientes para me questionar se eu talvez preferisse ter nascido loira de olhos claros ou pelo menos, não asiática. E isso vindo de coleguinhas que hoje (ah, a Internet fala tudo) fazem discurso em suas redes sociais de blacklivesmatter, de igualdade social e tal.

Quando eu virei XÓVEM (aka jovem adulta) eu fui estudar no  Bandeirantes, uma escola repleta de asiáticos (coreanos, chineses e japoneses em sua maioria). Lá me senti em casa e onde fiz mais amizades. Lá nem o preconceito de JAPONES CDF bitolado não tinha, porque a variedade era tanta que não era possível rotular o oriental com uma característica comportamental ou até mesmo física. Tinham japoneses altos, baixos, gordos, magros. E não tinha essa de segregar coreanos X chineses X japas. Temos um grupo de asiáticas amigas até hoje, entre japonesas e chinesas.

Na faculdade, mesmo sendo a minoria novamente (numa classe de 60 tinha 2 japonesas e eu) ,nunca sofri um assédio direto. Talvez eu sim tinha que me impor no grupo, talvez eu sim tinha que correr atrás dos rapazes para ter um rolinho, porque talvez as pessoas achassem que oriental é discreto, quieto, tímido e travado. Mas nada que me incomodasse.

Nos primeiros empregos, depois com minha família, no Brasil depois na vida adulta como XÓVEM E como quarentona, nunca mais tive algum tipo de preconceito como vivi na infância e adolescência.

O Brasileiro na verdade admira o oriental. Talvez não todos, mas principalmente o japonês. Então em todos os lugares as pessoas já tinham uma idéia pré concebida de mim, mas uma boa imagem. De pessoa direita, certa, correta. Isso é bom. Quando o japonês é torto, é exceção, é fora do padrão.

Eu imagino se eu voltasse a infância e algum cretino me xingasse de JAPONESA  e eu diria: “sou mesmo. Invejoso”.

Na Europa ,  sempre fui bem acolhida. Alemanha, França, Países Nórdicos, Holanda. No Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia. Se houve algum preconceito, não fiquei sabendo. Na minha frente, eles comentam como gostam do povo oriental.

A única exceção foram os países mais latinos da Europa, acreditem. Espanha e principalmente Itália, não raras vezes, comentavam se eu era chinesa ou japonesa e o preconceito lá é muito claro contra os chineses. 

Para mim, o pior país de discriminação foi os Estados Unidos, sem sombra de dúvida. Meus pais amam este país e realmente fui inúmeras vezes para lá. Mas posso citar vários incidentes: um atendente de hotel,  o pessoal da alfândega do aeroporto de Chicago, algumas pessoas em Nova York. A maioria era coisa besta do tipo me abordar com um Ni Hao Ma (como você está em chinês), mas no aeroporto de Chicago, me colocaram numa salinha de imigrantes com mais 2 orientais  e me fizeram um questionamento digno de quem matou 4 pessoas e foi para os EUA ser prostituta de luxo.

E pasme, nem todos eram caucasianos arianos, e uma grande parte eram latinos e africanos.

Eu vejo algo muito de errado com essa nação. É uma discriminação clara, ofensiva e agressiva. Você é definitivamente vista como pessoa ruim, inferior. É com muita dor que falo isso, primeiro porque meus pais amam este país, e tenho vários conhecidos que conheci em viagens, e sei que jamais fariam mal a algum asiático.

O meu medo é que o Brasileiro venera Americano. E adora copiar o estilo de vida deles. Espero que eles entendam que isso é digno de vergonha e não algo a ser seguido.

Eu concluo minha crônica dizendo que sim, sou abençoada por nascer numa terra tão cheia de diversidade e tão acolhedora como o Brasil. E que tenhamos orgulho e também noção de que nosso calor humano, nossa gente é nosso maior tesouro.

Uma dica para meus colegas asiáticos que estão postando nas redes sociais STOP asian hate. Além disso, jamais viajem para esses lugares onde estão acontecendo essas barbáries. Não dêem dinheiro para eles. Fiquem no Brasil. Vão para Boipeba, Morro de SP,  Floripa, quando essa crise acabar. Em todos eles eu fui acolhida e abençoada por meus olhos puxados, minha pele cor de mel, minha tez macia.