Tenho percebido nos últimos anos que a sociedade, pelo menos a brasileira, está começando a aceitar o crescimento do número de  mulheres que optam por não terem filhos. Em reportagens não apenas de revistas femininas, mas em uma das maiores revistas nacionais , em novelas e seriados, e principalmente, nas mídias sociais.

Eu sempre me achei fora da curva e exceção da regra por desde os 20 anos proclamar que filho não era uma prioridade na minha vida. E agora me deparo com muitas mulheres, de minha idade ou menos, que já estão decididas a não terem filhos.  Do meu círculo de amizades, pelo menos umas 5. E outras 10, que não exatamente por opção, mas porque ainda não encontraram o parceiro ideal para formar sua família, e não terão filhos por não quererem estar sozinhas nessa jornada.

Eu acho isso fantástico. Acredito que em épocas passadas muitas mulheres tinham a idéia de não terem filhos. Mas por pressão da sociedade, da falta de contato com outras mulheres que tinham a mesma idéia e por fim, acharem que estavam fazendo besteira na vida e iam “perder o bonde”, acabaram cedendo e formando suas famílias.  Tem mulheres que acabaram se descobrindo ótimas mães e uma nova vocação. Mas nem tudo é cor de rosa bebê no mundo das mães.

E sei que ainda algumas coisas são tabu. É tabu, por exemplo, mães expressarem seus arrependimentos em terem filhos.  Mas o arrependimento existe. O arrependimento de interromper uma vida de total liberdade pelo mundo, o arrependimento de ter mais filhos o que acabou por desestruturar economicamente uma família, o arrependimento de ser mãe e no fundo, não querer ser, ou ter simplesmente  a responsabilidade  aterrorizante de criar um ser humano.

Com isso, não estou fazendo propaganda de aborto ou tentar banalizar o arrependimento da maternidade, muito pelo contrário. Se teve filho, tem que cuidar até o final. Tem que engolir o choro e ir em frente. Para mim, ajoelhou, tem que rezar, tem que cuidar absolutamente dos filhos que procriou nesse mundo cruel, tanto fisicamente,  mentalmente e espiritualmente. Ser responsável pelos seus atos e decisões sempre foi minha doutrina.

Mas entendo que a expressão das dores da maternidade deve ser exposta para que as mulheres repensem sua vida e principalmente, a responsabilidade de trazer uma criança ao mundo onde estamos hoje. É importantíssimo que mulheres expressem suas dores, conflitos e reflexões sinceras e não maquiadas, para que outras mulheres se situam e não cedam a pressões  para mudarem suas vidas para sempre.

Corajosas são as mulheres que expõem seus dramas e suas reflexões, e recebem porrada de todos os lados. A atriz americana Brooke Shields foi duramente criticada por expor publicamente sua depressão pós-parto, mas se saiu por cima. Outra mãe inglesa foi também verbalmente apedrejada por alguns infelizes porque expôs seu arrependimento de ter tido mais 2 filhos além do primeiro, pois isso acarretou numa vida muito mais difícil para a família além do que ela havia imaginado.

Essas mulheres não deixaram de ser mães. Não são piores mães que as outras porque expuseram sua realidade. Elas foram de extrema generosidade  para advertirem outras mulheres de suas decisões, enquanto podem, em troca de receber ameaças e críticas de pessoas tanto conhecidas como desconhecidas.

Eu tenho 2 grandes amigas que sempre quiseram ser mães. Mas expõem abertamente seus perrengues e me apoiam em minha decisão de não ter filhos.

Uma é mãe de dois filhos, e apesar de declarar que ela não faria diferente em um milímetro de sua jornada de mãe solteira, apóia completamente as mulheres que não querem ter filhos.

Outra teve seu filho, lindo e saudável, aos 43 anos. E vocês pensam que ela mudou para o lado negro da força, julgando e cobrando as amigas que ainda não tem filhos? Muito pelo contrário! Ela faz questão de dizer as dores, dificuldades, extremo cansaço e literalmente SACO CHEIO da maternidade. Isso porque o filho dela é uma das criaturas mais tranquilas e fofas que conheço. Porém, filho dá trabalho. Filho exige atenção. Filho exige carinho, cobrança, reservas financeiras pesadas e atenção por muitos e muitos anos.

Com isso, quero dizer que o mundo está mudando, e se você é dessas que não querem ter filhos, seja bem-vinda. Você não é uma aberração, anormalidade, insensível, egoísta e o demônio que quer o fim da humanidade. Humanidade aliás, que tá povoada pra cacete e não se preocupem. Muitas mulheres serão mães, e espero, por puro desejo e vocação, apenas delas!

Quero dizer também para a sociedade, e principalmente para os marqueteiros de plantão, abrirem os olhos! Tem um público imenso e novo esperando por seus produtos e serviços. Não vamos morrer sozinhas numa quitinete com a cara comida por um pastor alemão. Vamos viver numa comunidade de amigos com piscinas e enfermeiros gatos.  Vamos fazer cursos até os 100 anos, vamos aprender a esquiar e surfar com 80.

Quanto as mulheres que estão sendo mães agora, minha profunda admiração e carinho. E sei que vocês serão mães maravilhosas, que não vão julgar a mulherada sem filhos, e que serão mães melhores que as mães de décadas anteriores. Eu sinceramente acho que cada época tem seu exagero negativo. A geração de nossos pais foi mais rígida. A geração seguinte foi a da proibição da palmada, o que resultou em adultos crianças mimados, mal educados, que gritam com o professor e não fazem porra nenhuma da vida aos 30 anos.

Acho que essa nova geração de mamães vai dar palmada sim, mas com moderação. Vai emprestar sim o IPAD para a criança ficar quieta, mas vai tomar se ela começar a espernear. Vai ter tempo para você mesma sim, para o happy hour com os amigos, e exigir do maridão não apenas o suporte, mas a criação conjunta.

Acho que sim, viveremos num mundo melhor. Com mulheres que terão 1, 2, 3, 4 filhos e com mulheres que não terão nenhum.