Com o isolamento estendido no país, as pessoas me perguntam constantemente se eu já não enlouqueci morando em um apartamento compacto.

Não, eu não enlouqueci.

Sim, sinto uma invejinha de quem tem casa de campo ou como a que eu vivia em Interlagos, onde o tamanho do quarto era o tamanho do meu apartamento atual.

Mas quando eu penso no perrengue que é limpar uma casa de 5 quartos, eu fico feliz no meu apto de 64 m2 que já é bem grandinho para o conceito de compactos atuais.

Acho que resiliência é a palavra chave para você passar de forma sana essa pandemia.

Eu achei vários  lugares que são os meus refúgios de paz quando estou um pouco alterada com as noticias de TV, com brigas no whatsapp, com amigas que são obrigadas a se isolarem de sua família para cuidar de outras.

Eu tenho o meu quarto, quentinho e cheio de lençóis macios e gostosos. E pela primeira vez em 10 anos eu acionei a TV do quarto que nunca tinha sido ligada, e tem sido uma delícia sim, assistir TV deitada na cama.

Eu tenho a sala para trabalhar (que tem uma luminosidade incrível), eu tenho uma cozinha apertada onde consigo me virar para cozinhar alguma gororoba nova, mas o meu cantinho da paz sem dúvida é minha minúscula varanda.

Essa varanda foi eleita por mim como o cantinho apaziguador, aconchegante, como um abraço de mãe ou de avó.

Lá eu tenho regra: nada de trabalho, de aula virtual. Só vale esvaziar a cachola.

Em um micro espaço de 2,70 por 1,50 eu tenho direito a uma rede de descanso, que não raro, constumo tirar uma sonequinha ou ficar horas pensando na vida.

Eu tenho uma cadeira de praia para me sentir que sim, ridiculamente e só comigo mesmo, estou na praia, com os pés imersos em um escalda pés improvisado.

Tenho ainda uma mesinha com banquinho que faço todo domingo um brunch com direito sim a espumante baratinho nacional (ou não) e ovos beneditinos mara.

Ainda não acabou: eu tenho uma chaise lounge com várias almofadas queridas onde sento, durmo, deito, acendo velas com aroma de baunilha, incensos da Liberdade, olhando o pouco de céu que a Vila Olimpia me proporciona, e os pedestres solitários ocasionais na rua.

Sei que não é fácil às vezes achar seu cantinho de paz. Em uma casa de 4 suítes mas um marido preguiçoso e 3 crianças hiperativas tendo aulas virtuais pela primeira vez, pode ser um caso quase impossível.

Pode ser também difícil para quem tem um apê de 30 m2 sem varanda e divide ainda com um cônjuge. Mas pode ser um quarto só seu por algumas horas ao dia, com uma plaquinha carinhosa de “não pertube”.

Em uma época insana como essa, faça seu cantinho da sanidade mental: paz.

E não é necessário sair comprando mesmo que virtualmente tudo que possa melhorar seu cantinho, até porque colocamos entregadores em risco.

De repente, você tem tudo o que precisa na sua casa: uma vela, uma poltrona gostosa (e pode sim ser até uma espreguiçadeira de praia de 50 reais) , uma playlist tranquila no Spotify, uma vela aromática ou alguns óleos essenciais que estou adorando, um docinho gostoso porque sim, é permitido na pandemia ganhar alguns quilinhos extras. Um álbum de fotos antigas, um livro que você já leu umas 10 vezes mas sempre é gostoso de ler (o meu é o Bridget Jones – o primeiro) E permita-se! A vida lá fora continua, com suas notícias alarmantes, as crianças brigando, o marido perdido, a amiga depressiva. Mas você tem que ter seu momento de paz.  Todo dia.