Ainda não assisti a continuação da série norte americana da HBO Sex and the City, celebrada no início de 2000, mas já quero dar meus pitacos.

Para quem ainda não conhece, Sex and the City era a série queridinha da mulherada , no início dos anos 2000, que contava as peripécias de 4 mulheres de personalidades muito diferentes entre si, solteiras e nos seus 30 e poucos anos, em Nova York. Tinha a protagonista, Carrie, jornalista descolada e amiga de todas, Charlotte, a bonitinha de família tradicional e pensamento de mulherzinha, Miranda, a advogada assertiva e irônica, e Samantha, a mais experiente de todas e a mais liberal também.

A mulherada adorava os cenários de Nova York, os figurinos cheios de grifes e descolados  da  estilista Patricia Field, e as histórias que tanto queríamos, ou nos identificávamos. Era os encontros que não davam em nada, eram os boys lixos que acabavam com nossa vida (Mr. Big), os boys bacanas que mudavam o curso de nossas vidas e até de nossas convicções  (Steve e Miranda) e até teve casos entre mulheres (Samantha e uma mulher interpretada por Sonia Braga!). Hoje nada de mais, mas um furor na época.

Era o que chamamos de Confort série:  não importa o quão datada ela possa estar (afinal são quase 20 anos atrás) , a mulherada ainda ama e assiste os episódios sabendo exatamente o que vai acontecer.

Um pouco de escape à realidade? Sim. Na pandemia, com tudo fechado, era uma delícia assistir as garotas jantando em lugares incríveis. Enquanto estávamos com contatinhos zero, era bacana ver as garotas trocando de boys a cada episódio. Enquanto estávamos contando as moedas para pagar o aluguel e as prestações de iptu, ipva e ipqpariu, adorávamos ver Carrie adquirindo mais um par de sapatos pela bagatela de 400 dolares (me pergunto se uma jornalista com uma coluna semanal em um jornal da cidade conseguia manter esse estilo de vida). Acho bacana tbém que eram mulheres reais, como nós, bonitas do seu jeito mas não impossíveis plasticamente .

Daí , depois de  6 anos de série, 2 filmes (que achei bem ruinzinhos para falar a verdade), os produtores reuniram o elenco para uma continuação.

Com a exceção de Kim Cattrall protagonista de Samantha , todas as mulheres estão nesta nova série, intitulada “ And  Just Like That”.

Já adianto que não assisti (não assino TV quem dirá HBO Max), pretendo assistir e já deixo aqui minhas opiniões sobre as decisões da série.

Como ansiosa assumida e curiosa , já sei a sinopse de todos os episódios, bem como todos os spoilers e histórias . Então deixo um SPOILER TOTAL abaixo para quem não quiser saber o conteúdo da série. Se não quiserem saber, parem por aqui. Spoiler de quem não viu mas já sabe o que vem por aí (culpa do YouTube e do Google!)

Ouvi muitas críticas de amigas que já assistiram e não gostaram, algumas odiaram.

Quem queria um final feliz para a Carrie, ficou decepcionada que Mr. Big morre logo no primeiro episódio.


Mr . Big era o típico boy lixo, um cara milionário, mulherengo, avesso a relacionamentos sérios e que esquentou Carrie por 6 temporadas até no último episódio se decidir que Carrie era a THE ONE. Honestamente, nunca comprei essa história e vejo de maneira negativa que muitas mulheres tenham esperança de transformar um boy lixo em boy príncipe.

Quando anunciaram “Just like that”, não era um remake, mas uma continuação depois de quase 15 anos que a série terminou.

As protagonistas, antes com 30 e poucos anos, agora estão nos seus 50 e poucos anos.

Creio que toda a mulherada esperava mais do mesmo:  muita diversão, glamour, roupas top de mulheres um pouquinho mais velhas. Diversão leve e garantida.

Não foi isso que entregaram. Longe disso. Ao contrário que os trailers pareciam e prometiam, a nova série tem um tom bem mais pesado e dramático.

Primeiro: as protagonistas realmente estão mais velhas. Po, mas são 15 anos, não é mesmo? Miranda assumiu seus cabelos brancos, Carrie está com o rosto enrugado se distanciando muito de sua protagonista anterior de cara leve e cabelos brilhantes. Charlotte está claramente botocada e preenchida. Todas estão levemente mais cheinhas . Os figurinos antes cheios de decotes, estilo e bossa, agora estão evidenciando bem a chegada da quase terceira idade .Veja bem: não é uma crítica, estou apenas descrevendo como elas estão, e depois vou dar minha opinião sobre isso.

Segundo: a vida é nua e crua. Carrie perdeu seu príncipe transformado para um enfarte fulminante no primeiro episódio, e metade da série dedica ao seu luto, agravado por um problema chato de saúde.  Miranda está apática e está virando uma alcoólatra. Charlotte, antes uma mulherzinha adorável, agora virou uma botocada de meia idade chata e chorenta. Uma de suas filhas está em dúvida de sua própria sexualidade, uma afronta para ela.

Creio que a série atraiu mais haters do que fãs, e muitos aficionados por sua série anterior se sentiram não só decepcionados, como também ultrajados. A maioria diz que era melhor ter acabado no último episódio e poupar o público disso.

Daí eu pergunto: poupar o público do quê?

De presenciar o envelhecimento natural do trio ? De ter que assistir à dor excruciante de Carrie? De ver Miranda toda cheia de erros, antes a personagem preferida de muitas, por sua sagacidade e racionalidade, sendo a mais ponderada das 3? E pior, de ter que lidar com a ausência de Samantha, já que os bastidores reais mostraram que nem tudo eram flores no set e teve realmente atritos entre as atrizes que faziam os papéis.


Como já disse, não assisti , mas já opino. É uma decisão corajosa, e merece meu respeito. Talvez muito pessimista, talvez exageradamente caricata. As roupas já denunciam isso, estão demasiadamente datadas. As mulheres de 50+ que conheço se vestem muito melhor, e muito mais atraentes.

Mas isso é algo que eles podem equilibrar na segunda temporada, já prometida com Sharon Stone para ocupar a lacuna criada por Kim Cattrall.

Seria muito mais fácil que as protagonistas estivessem com vestidos justos, mais magras, com camadas e mais camadas de base para esconder suas rugas, e flanar por aí nos restaurantes e lojas de Nova York. Carrie brigando com seu marido Mr Big. Miranda às voltas com seu filho e seu marido Steve. Charlotte com seu marido e suas filhas e seus cachorros King Cavaliers.

Isso agradaria o público conservador e mostraria que a série continuaria ainda em 2000.

Como disse, mostrar a cara e histórias nem sempre agradáveis requer coragem para lidar com a rejeição natural do público. Talvez é uma série que terá muito mais importância a longo prazo, exatamente pela discussão e desconforto que causou. E isso porque olhando de longe, nem parece tão transgressora assim.

Claro que algumas coisas acho que ficaram meio forçadas, como a inclusão de vários personagens atípicos a predominância original da série so White so heterossexual. Não que seja um elemento negativo, pelo contrario, é muito importante.

Agora as personagens se sentem mal porque não tem amigas de etnia diferente e agora todas têm sua cota de amigas negras, indianas, asiáticas e no gender, que honestamente, pelos trailers já dá para perceber que foi meio forçado.

Por outro lado, tem que se aplaudir a inclusão.

Uma das histórias que mais geraram polêmica é ver Miranda se mostrar uma mulher instável, insegura, que faz besteira, e está infeliz em seu casamento com um cara que seria o sonho de todas as mulheres: estável, bacana, compreensivo. Pior: no final da série, ela pede o divórcio e vai atrás de um novo amor, interpretado agora por uma mulher no gender.

Pois é mulherada, nosso castelinho de cristal de Nova York se quebrou. Talvez seu príncipe não vai viver para sempre. Talvez seu casamento não dure porque você mesmo está infeliz. Talvez você que se achava quem você era não sabe mais quem você é.  E isso não é fácil de ver.

Existe algo de muito pessoal por trás das novas histórias dessas mulheres. Cinthia Nixon, a atriz que interpreta Miranda, terminou um casamento de mais de 20 anos para se unir a uma mulher na vida real.

Sarah Jessica Parker, que interpreta Carrie, admite que teve problemas sérios de saúde com o uso de seus saltos Jimmy Choo e Manolos.

Kristin Davis, que interpreta Charlotte, sempre se sentiu chateada por ter seu corpo comparado ao de Carrie. Ela é a falsa magra (eu a achava magérrima na primeira versão) que tem um corpo tipo violão.

Espero que os roteiristas encontrem um tom mais ameno para a segunda temporada, mas que não desistam da coragem de não entregar aquilo que o público espera  e sim algo que vai além do entretenimento de fácil digestão. Talvez sejamos ainda mais retrógrados do que gostaríamos (e julgamos) ser.

Bjo no coração. Deem uma chance para essas meninas. Eu vou dar. Até porque daqui a 5 anos? Estarei cinquentona que nem elas. Just like that.