Minha família nunca foi muito ligada à comunidade japonesa. Talvez porque crescemos num bairro cheio de austríacos e alemães, e talvez porque eu tive o mais brasileiro (e mais maravilhoso do universo) dos pais japoneses, eu só fui conhecer um pouco mais da cultura de meus ancestrais depois de xóvem.

Então não: não fiz Kumon, não frequentei nenhuma igreja holyness, não fui nas baladinhas do Clube Ypê, não fiz Etapa (mas fiz Bandeirantes). E atualmente, 90% das minhas amigas não são de origem nipônica.

Este ano eu tive a oportunidade de ir com minha querida mamãe e uma grande amiga nossa de longa data para o Costão Matsuri, um período que o Resort Costão do Santinho dedica a comunidade japonesa brasileira, com atividades indoor (oficinas de ikebana, karaoke box, kimono experience) e outdoor (gateball, caminhadas), shows e danças.

O Resort Costão do Santinho fica em Florianópolis. A praia não é lá essas coisas, mas fica perto de Moçambique que é linda. E a estrutura do hotel é incrível. Eu sugeri para minha mãe porque vi uma oportunidade dela se conectar a outras senhoras, viuvas ou não, que tenham atividades para ela se distrair. A nossa amiga, por exemplo, do alto de seus 75 anos, pratica karaoke, yoga, dança com seu proprio grupo de senhorinhas japonesas, e quero muito que minha mãe tenha um novo circulo social nessa nova fase de vida.

Para mim, só me restava a comida e bebida garantida do all inclusive e algumas incursões à academia.

Como foram esses 4 dias lá?

Não nego: trouxe minha mãe para ela se divertir e acho que me diverti mais que ela. Entrei na dança das senhorinhas, vesti meu kimono, joguei cartas (só não participei do karaokê de músicas japonesas porque até minha cara de pau tem limite).

Apesar das altas gargalhadas de minha mãe vendo meus passinhos tentando acompanhar a dança das senhorinhas japonesas, e apesar de ser um pouquinho fora da curva da típica moça nipônica (o estereótipo quietinha, miudinha, delicada, fala baixo e não gesticula), eu me identifico fortemente com meu povo e me considero sim, japonesa 100% e com muito orgulho.

Foi uma delícia ver as senhorinhas japonesas se divertindo pra caralho lá. Não tinha crianças (a maioria não levou família, pois sim lá era o momento delas). Muito mais senhorinhas do que senhorinhos, e estavam sempre lá, de bando. Jogando cartas, enchendo um pratão no buffet, participando das atividades, e um detalhe que me marcou: riam muito.

Percebi sutilmente que os japoneses realmente são diferentes do brasileiro. O Brasileiro tem seu lado mais ágil, mais malandro, mais espertinho , o que não é ruim. O japonês tem um lado quase inocente, mais limitado. Dancinha do tchan com várias coreografias não tem. Tem o Bon Odori que é uma dancinha repetitiva, simples e de poucos movimentos. As piadas são pouco maliciosas, quase infantis. Mas existe um respeito ao próximo, de dar espaço para passar, de deixar o espaço sempre limpo (primeiro buffet que não vejo comida esparramada pelo chão ou largada na mesa), que daí eu vejo: “quero ser que nem eles”.

E a leveza, a leveza de sentir prazeres nas pequenas coisas, de poucos gestos e ações, me faz repensar porque queremos fazer tudo ao mesmo tempo, registrando para postar, o maximo de coisas feitas em pouco tempo?

Que Deus possa me dar saúde e longevidade para seguir os passos dessas senhorinhas que chegam aos 90, 100, mais de 100 anos de vida celebrando suas origens de um povo que merece nosso total respeito, comendo, bebendo, dançando e rindo com as amigas.

KYO WA ARIGATOU GOZAIMASHITA