Se tem algo que realmente os 40 anos me ensinou foi que realmente nosso autoconhecimento explode nessa década. Inseguranças, medos de arrependimentos, tudo diminui . Nos orgulhamos de nossas decisões e mesmo aquelas decisões que nos afetaram negativamente concordamos que foi para nosso crescimento pessoal e não poderia ser de outra forma.

Também começamos a ter uma clareza absurda de como momentos que aparentemente eram insignificantes na época que aconteceu, depois se abrem como pontos determinantes em nossa vida.

Compartilho com você uma história minha que não sei porque, talvez porque na época eu não queria me abrir, mas é muito interessante e nunca conversei com ninguém a respeito.

O cachorro pretinho de Caraíva.

O ano era 2022, e em novembro eu decidi i para Caraíva. Já tinha passado por lá em um passeio bate volta de Trancoso, e sabe quando você vai com a cara do lugar?

Caraíva é um vilarejo hoje hypado no sul da Bahia, mas sempre teve um lugar no coração das mulheres que viajam sozinhas. Já foi um paraíso super seguro . Hoje nem tanto por conta da guerra de gangs de tráfico de drogas que assolam o litoral do nordeste brasileiro. Mas ainda assim oferece uma sensação de segurança e paz que não encontramos mais em São Paulo.

As ruas de Caraíva são todas de areia, e no seu centrinho não passam carros. Tem praia perto, tem encontro do rio com o mar, lojinhas e cafés descolados.

O ano de 2022 foi pesadíssimo para mim. Perdi meu querido papai em julho de 2022, para um câncer devastador, e parte de mim morreu com ele.

Essa viagem era uma das tantas que já tinha programado, e resolvi fazê-la de qualquer jeito.

Eu cheguei xoxa, deprimida e logo o ambiente de Caraíva já me acolheu, com sua brisa constante, os dias ensolarados sem nenhuma chuva, pessoas incríveis e do bem que foram minhas companhias naqueles dias. Eu chorei muito nessa viagem. Antes de encontrar esses amigos para jantar, eu ficava longos períodos na praia, contemplando o mar e sorvendo todos os momentos felizes e marcantes que tive com papai. 

Em suma, a viagem toda foi perfeita, com os passeios, o tempo, as pessoas que encontrei pelo caminho. Seria uma viagem apenas bem sucedida, ok.

No último dia, minhas amizades já tinham ido embora e eu resolvi só dar uma passada na praça principal. Fiquei lá conversando com o pessoal que estava morando por lá, tomando muitos Xeques Mates, de conversa fiada.

Um cachorro pretinho, de porte grande,que lembrava o Doberman que tinha aos 7 anos de idade, se aproximou de mim. Caraíva é assim: todo mundo cuida dos cachorros de rua, que estão sempre bem alimentados e cuidados por todos. Adoro lugares assim.

Como todo cachorro de Caraiva, o pretinho como todos o chamavam tinha coleira, pelo incrivelmente brilhante e bem nutrido. Ele olhou para mim, como todos os cachorros o fazem, pediu carinho, como quase todos pedem,  e se sentou ao meu lado.

Fiquei na pracinha com ele por umas boas 2 horas e decidi que era hora de voltar para a pousada, pois tinha que acordar cedo e resolver o transfer de volta a Porto Seguro.

Ele poderia ter ficado lá com a turma. Mas resolveu me acompanhar até a pousada. No caminho , ainda ciumento, espantou outros cães que queriam se juntar a nós.

Na pousada, ele entrou comigo. Não levei para o quarto, pois eram regras da pousada. Ficamos na sala da recepção, eu e ele. Eu no pufe e ele do meu lado, sempre me olhando com o olhar mais doce que um cachorro pode dar, e não são poucos.

Ele não queria brincar, ele não latia para mim pedindo comida ou água, ele só queria ficar do meu lado.

Quando deu umas 4 horas, resolvi que tinha que finalmente dormir e ele chorou para entrar no meu quarto. Não cedi. Deixei ele de fora e caí no sono, eventualmente acordando para ver que ele estava atrás da porta.

De manhã, acordei e vi que ele não estava lá. Fiquei aliviada, pois vi que ele tomou seu rumo.

Fui tomar o meu café da manhã e a moça da pousada disse que tinha um cachorro pretinho dormindo ao pé da porta do meu quarto, até de manhã e ele só saiu porque ela teve que espantar ele. Ele tentou voltar várias vezes, mas foi espantado em todas.

Isso ficou na minha cabeça. Era o espírito do meu paizinho reencarnado no corpo daquele cão pretinho? Era um anjo  em forma de cão, me acompanhando e me protegendo , eu que estava num momento tão triste, difícil e vulnerável , o mais da minha vida?

Será que eu deveria ter tido a coragem de adotá-lo e trazê-lo para São Paulo, onde eu teria talvez o amor mais puro de minha vida com um filho adotado de 4 patas? Com todas as pessoas que compartilhei essa historia, todas absolutamente disseram que era obrigatório que eu tivesse adotado ele, pois ele me escolheu.

Tudo isso se esvaiu quando voltei para São Paulo. Não, não tive arrependimentos.

Penso nele de vez m quando? Com certeza.

Mas me vitimizar e me culpar não é realmente de meu feitio.

E hoje eu vejo que isso é um padrão na minha vida. Que o fato de ser solteira, sem filhos, por enquanto não foi um golpe de má ou boa sorte, e sim, porque eu trilhei o caminho dessa forma.

Não é apenas sobre o cachorro pretinho. É sobre amizades, amores não continuados, ações não realizadas.

Não que eu seje inerte pelo medo. Já fiz muita coisa nesses meus 40+ anos. Já pulei de para quedas e asa delta, já abri e fechei empresas, já abri e vendi negócios, já me relacionei com muita gente.

Mas eu tenho a frieza necessária de enxergar quando algo vai ser determinante na minha vida, e fazer a decisão sensata,, pelo menos para mim.

Eu poderia ter adotado o cachorro pretinho. Seríamos felizes para sempre. Eu sei que ele seria maravilhoso para mim. Mas eu estaria privando minhas viagens incríveis, meu silêncio de casa, minha paz de não ter que programar minhas saídas, porque sim, ele era espaçoso e barulhento.

Eu poderia ter insistido e até casado com meu ex. Fui realmente apaixonada por ele. Quando estávamos na fase boa, eu imaginei sim que ele poderia ser o the One, o homem que ia envelhecer e morrer ao lado dele. Mas depois de um ano, veio as decepções, e não é apenas um capricho, mas uma demonstração de caráter (ou falha dele)que eu ia ter que carregar caso continuasse na relação.

Eu poderia tantas coisas. Poderia ter me casado e ter tido filhos com um cara cuja índole não éra das melhores. Com outro que parecia muito boa gente, mas eu não tinha absoluta paixão por ele. A oportunidade de casar e ter filhos surgiu aos meus 30, 35, 40 anos, e eu deixei passar.

A beleza disso tudo? Não me arrependo. Como o cachorro pretinho.

Ainda bem que as pessoas são diferentes, e cada uma com sua história no mundo. Minha amiga adotou uma cachorra pretinha tetraplégica que foi largada por uma amiga ingrata, e ela cuidou com tanto carinho que agora a danadinha voltou a andar. Tenho amigas mulheres que decidiram ter filhos com homens que largaram ela e o filho depois de alguns anos, e viraram mães solteiras. Dou um troféu para elas, que criaram seres maravilhosos, mas não obrigada, esse calvário eu passo.

A beleza dos 40 e tanto anos: saber quem você é, e que ainda faz a diferença no mundo, sem precisar plantar uma árvore, criar um filho ou casar na igreja.

Eu voltei para Caraiva 2 anos depois, e não vi mais o cachorro pretinho. Ele pode ter sido adotado por outra turista. Se virou estrelinha, deve estar atazanando e abanando seu rabinho para meu pai, que dizia que odiava cachorros, mas duvido que ia resistir ao olhar mais doce da terra. Amarei eles para sempre.

Beijo no coração. Sejam a melhor versão de vocês, sem medo. Tamo juntos.