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A Internet tem muito lixo, né gente? Tem que ter uma boa dose de paciência e critério para selecionar conteúdo que realmente vão nos agregar. Mas eis que num mar de Notícias Falsas e correntes ameaçadoras “ se você não enviar para 10 pessoas”, surge uma história bacana, de uma certa Jout Jout,  vlogueira literária ou coisa do tipo.

Começou assim: vi em vários grupos do meu Whatsapp e em feeds do Facebook  citações e sátiras sobre esse tal livro “A parte que nos falta”, uma publicação infantil de 1976! É um livro com ilustrações propositalmente toscas(!) mas  que carregam uma mensagem tocante. E rola no YouTube uma avaliação do livro dessa Jout Jout , que segundo vários de meus amigos, te fará cair em lágrimas no final. Pois bem, fui lá pesquisar no YouTube.  Gostei, viu? Talvez lágrimas não surgiram (ainda), mas me fizeram refletir pelo meu momento atual e de vários amigos por aí.

Sempre acho que a forma simples e pura de explicar uma emoção surte muito mais efeito do que algo extremamente elaborado, com trilha sonora.

E é exatamente por isso que “A parte que nos falta” é tão bem sucedido. O livro, pelo seu próprio mérito, e também impulsionado por Jout Jout, se tornou o livro mais vendido atualmente pela Amazon, fala através de um desenho bem simples, da busca de uma criança (ou adulto) pela sua parte que ela julga faltar em sua vida.  E nos mostra que nunca estamos plenos, seja com ou sem a parte que nos falta.

Putz. Um desenhinho tosco desse me fez refletir muito sobre algumas passagens de minha vida. Em especial, agora, que passei dos temidos 40 anos.

Mais do que em anos anteriores, confesso que rola uma inquietação máster blaster de nossas decisões ou ações que ainda não decolaram.

Divido com vocês dois pilares que me fazem pensar muito em segredo sobre o que sou e o que quero fazer da vida que me resta. Como o livro diz brilhantemente, o ser humano sempre está com uma parte que lhe falta. E não necessariamente achando-a, você se tornará completo.

A primeira, obviamente, é a parte de achar alguém para chamar de seu. Eu sempre fui uma pessoa confortavelmente solitária. Explico: apesar de ter vários amigos, gosto e busco momentos e viagens sozinha. Preciso realmente de dias, finais de semana, noites a só para pensar na vida e ficar de boa, sem ter que me comunicar com alguém.

Eu nunca fui casada ou noiva, e tive apenas alguns namoros, que apesar de rápidos, foram importantes para mim. Não tenho vergonha de falar isso. Se as outras pessoas vão achar que sou anormal porque nunca casei ou morei com alguém, que pensem e guardem para elas.

No entanto… ahhh, tinha que chegar esse dia. A gente começa a ficar mais cansada. Me surgiram mais 2 fios de cabelo branco!  Comecei a achar algumas amizades ocas, sem sentido nenhum. Meus pais já estão ficando velhinhos, tadinhos. Fiz uma viagem recente com eles e constatei isso, com muita dor no coração. Fui recentemente assaltada de forma bem estúpida, e apesar de resolver as questões financeiras e burocráticas eu mesma como sempre fiz, queria ter tido na hora e depois um apoio de alguém que estará sempre presente. Não apenas uma ligação de amigo que no fundo, só está curioso para saber o que foi roubado e como foi ou um carinho nas redes sociais. Queria afeto, colo e principalmente, empatia.

Daí comecei a ver beleza (para não falar que era uma certa invejinha, mas branca, viu) em amigos que não via antes. Uma família gigante e unida, com todas suas fofocas e picuinhas. Um marido chatinho mas que sabe de todos os seus defeitos e do que gosta de comer a noite.

Ver beleza em fotinho feliz de viagens a Europa e a Tailândia nas redes sociais é fácil, minha colega. Quero ver você dar like quando seu amigo lhe confidencia que está numa bad danada porque  teve que pedir à família uma ajuda extra no orçamento diário.

E estou enxergando beleza nisso. Mesmo sabendo que muitas, muitas pessoas ao meu redor que já acharam “sua parte”, se sentem por vezes emperradas por carregarem essa parte consigo.  São amigos que nos dizem que é preciso uma dose enorme de doação e compreensão, para não falar em “anulação de si mesma” para a relação continuar. Tenho amigos que já expurgaram essa parte para poder continuar com a vida. Alguns estão bem, outros nem tanto. Talvez até tenham se arrependido de ter expurgado a parte.Tenho amigos que possuem o melhor parceiro da vida, mas mesmo assim têm seus dias “está faltando uma parte em mim”.

Bem, eu jamais pensei em dividir com alguém minha casa, minhas idéias em tempo integral, e principalmente, meu estoque de comida.

E mesmo assim, estou decidida a tentar achar essa parte para mim, viu? Talvez eu esteja disposta a ter que me anular (um pouquinho), a aguentar a casa um pouco mais suja, dividir minhas comidinhas com alguém.  Pode ser que eu ache essa parte e depois não consiga mantê-la. Mas como diz o livro, você precisa tê-la para saber.

A segunda questão é a parte do tal “legado”. Eu tive um sonho recente que tinha morrido e estava fazendo uma avaliação do que tinha feito em minha vida. Foi super angustiante, até porque  está claro para mim que ainda quero realizar algo grande. O fato de não querer ter filhos e constituir família já me tira uma possibilidade (ou redenção). Por exemplo: meu pai construiu do zero uma empresa que pôde empregar ao longo de muitos anos muitos funcionários e criar 3 filhos com muita educação e conforto. Eu já recebi tudo isso de bandeja. Ok, não fui louca de torrar tudo numa Ferrari e com boys magia negra, mas também não foi nenhum super feito.

Este ano, fiquei com mais energia de focar meu trabalho para ações que realmente  melhorem o mundo. Eu já trabalhei para uma ONG, e por motivos diversos não gostei, não é para mim. Mas nos últimos anos me impressionei como algumas empresas  conseguiram mudar a vida das pessoas, principalmente na área de tecnologia, que sou uma dinossaura, confesso. O Uber fez com que muita gente vendesse seu carro não por necessidade, mas por pura economia e praticidade. O Airbnb e Booking facilitou a vida do viajante de tal forma que nos livramos de agentes de viagens e grandes redes de hotéis. O Dr. Consulta fez com que muitas pessoas sem acesso a planos de saúde abusivos pudessem ter serviço de melhor qualidade sem depender . da Rede Pública (não sou usuária deste último, mas tive relatos de conhecidos).

 

Enfim, estes são alguns dos meus anseios. Tenho amigas com anseios parecidos e diferentes. Sempre da parte que falta. De alcançar uma posição de comando, de trabalhar em uma super multinacional de cosméticos, de ter um filho, de viajar o mundo, de conhecer outros boys . E vez ou outra temos a Internet como ferramenta de excelente auto-ajuda. Enfim, acho que vou tirar muitas lições e motivações desse livro de desenho Tosco, e da Jout Jout. Obrigada! Recomendo a todos em busca de sua parte que falta.Ou não da parte em si, mas da jornada, com direito a todos os buracos e borboletas que a vida lhe dará.desenho emoji