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À querida mulherada:

Um tapinha na cara:

Tenho que dizer uma coisa. Até hoje não entra na minha cabeçona esse mito de homem pagar a conta.

Quase todas as mulheres que conheço, amigas ou desconhecidas, acham importantíssimo que o homem pague a conta. Em uma confraria que faço mensalmente, das 20 presentes, apenas 3 acham aceitável dividir a conta com o bofe.

E olhe que são amigas solteiras, casadas, mães solteiras, mães compartilhadas, vulgo feministas, que ganham o próprio dinheiro e aprenderam a ser independentes financeiramente desde cedo.

Todas, absolutamente todas, se decepcionam quando o boy não insiste para pagar a conta do bar, do restaurante, da balada, o que for.

Eu absolutamente luto pela igualdade de gêneros e pela igualdade de salários. Tem uma balada em SP que coloca explicitamente 30% a mais no valor de entrada para os homens, que é o equivalente à desigualdade salarial nossa. Acho o máximo. Mas uma coisa é uma coisa.. outra coisa…

Conheço um monte de mulher que se diz independente financeiramente e espiritualmente dos boys, que não precisam deles, que são muito pro caminhãozinho de vários que saíram, mas na hora da conta, se fazem de marias sem braço e olham para o lado.

Muitas se defendem dizendo que mais do que o valor, é uma prova que o boy está interessado em você para um relacionamento amoroso sério. Conversa, minha filha. A maioria só quer te comer mesmo. Aliás, se o boy for esperto e quiser pontuar rapidamente, ele paga a conta mesmo.

Outras dizem que se, o caso não for para a frente, pelo menos ganhou o jantar. Pagou a maquiagem, a roupa nova, o Uber. Dizem que gastam muito mais do que eles para se preparar para o encontrinho. Balela. Homem hoje em dia gasta mesmo. Se ele vier todo desarrumado a gente não pega. Então ele se arruma sim.

Acho que já está na hora de discutirmos isso. Mulherada, me dá uma impressão que somos oportunistas, aproveitadoras.

Podemos ser até aproveitadoras dos corpitchos dos boy magia, mas do dinheiro deles?

Vamos lá: eu conheço um boy. Gosto dele. Ele me convida para jantar. Eu me arrumo, ele se arruma. Eu arranjo espaço na agenda, ele também. Só que não temos filhos juntos, e nem compromissos. Ainda. Eu ganho o meu dinheiro. Ele, o dinheiro dele. Porque ele teria que pagar a conta?

Aí vem a enxurrada de respostas:

– Porque daí você não se valoriza..

Oiiiiii. ….. lembra que a proporção de mulher tá 10 para 1 homem nas grandes cidades? Lembra que você já não é virgem há muito tempo, sua quenga? Quer dizer, pelo menos as quengas não são hipócritas. Elas ganham pra isso. Você dá de graça, ou em troca da “gentileza” dele.

– Porque mostra que o boy não está assim tão interessado em você

Bem, isso é discutível. Já saí com boy que queria pagar a todo custo para me conquistar e era um fofo. Já saí com muitos boys MAGIA NEGRA  (explico o conceito do boy magia negra em outro texto nesse blog) que nem estavam tanto a fim (ok, só queriam um fast fuck mesmo)  e logo depois sumiram que nem um passe de mágica.

– Porque eles ganham bem mais que a gente

Oiiiiii de novo. Já saí com muito boy que ganha menos do que eu. Aliás isso é uma verdade cada vez mais constante nos dias de hoje: a mulher que ganha mais que o homem.

Temos que nos libertar desse estigma, mulherada. Só assim vamos nos igualar aos machos.

O colunista Alexandre Vidal Porto publicou uma crônica muito sábia intitulada de “Porque as mulheres devem dividir a conta do motel”, no Jornal Folha de São Paulo. É, minhas queridas, na hora de protestar contra a desigualdade contra as mulheres todo mundo fala, mas na hora de dividir a conta do motelzão, de repente todas viram mulherzinhas virgens e desprotegidas, cujo total prazer é do garanhão macho e não o seu.

Eu saí algumas vezes com um cara super legal, que conheci num pub. Não só ele pagou as contas de nossos encontros, como não aceitava a divisão justa. Toda hora era uma discussão meio chata. Me pegava em casa todas as vezes. Putz, eu sei que parece cuspir no prato, mas depois de um tempo comecei a ter vergonha de mim mesma. É realmente uma delícia ter o boy à disposição, não ter que dirigir ou pegar Uber (eu odeio dirigir) e não mexer no bolso toda vez que ia num restaurante bacana. Mas e a conta psicológica depois?

Eu fui sempre ensinada pelos meus pais a nunca depender de outros, nem aceitar favores financeiros, como jantares e presentes. Sempre pagar a minha parte. Só aceitava de meus pais, e olhe lá. Depois de adulta, minhas contas, meus problemas.

Daí eu pensava: tem contrapartida nisso aí. Que seja, tem que dormir com o boy porque ele te pagou. Tem que ser mais carinhosa com ele, aceitar mais as coisas, porque ele pagou. E daí para um relacionamento abusivo pode ser um passinho..

E nunca mais saímos, eu e o boy generoso. Fiquei bodeada com toda essa generosidade, que pode ter sido genuína da parte dele, mas para mim era se render ao gênero donzela que tanto abomino.

Vamos pelo lado da amizade: não é muito natural ter uma amiga que paga tudo para você. A gente brinca que seria maravilha, mas se você tem uma amiga que paga tudo, é difícil vocês terem uma relação de igualdade, mesmo que ela não cobre diretamente. Os programas serão naturalmente os preferidos dela. Os jantares, também nos lugares que ela quiser.

Eu gosto disso, gente: gosto de dividir as contas com o boy. É fofo sim quando ele se oferece para pagar a conta, mas não, obrigada. Que tal repensar isso?

Deveríamos parar de pensar que o boy só vai pensar seriamente na gente se pagar as primeiras contas. Deveríamos parar de nos gabar para as amigas relatando que não mexe na carteira quando sai com o boy. Isso não é superioridade de mulher . Isso é retroceder.

Tá, somos diferentes sim homens e mulheres, e em determinados momentos gostamos de bancar a donzela,que é protegida pelo macho. Mas o dinheiro deveria ficar fora disso. Temos que  parar de olhar para o lado quando vem a conta para pagar. Querem igualdade, meninas? Comecem rachando a conta com o boy. Até do motel. Beijo no coração. Aqui é curintia.