Ao longo dos meus mais de 40 anos, colecionei amizades e desamizades.

 

Tenho amigas desde a época do colegial, que apesar de cada uma seguir caminhos diferentes, ter sua própria família, ter me afastado por um longo período, continuamos unidas e temos quase certeza que irá se perdurar até o final de nossas vidas. São elas que irão no meu funeral (toc, toc, toc) ou eu no delas (toc, toc, toc).

 

Porque essa quase certeza? Porque esse quase é uma das grandes infelicidades da vida, caras.

 

Eu tinha certeza que minha amiga do primário seria minha amiga para sempre. Depois de 5 anos grudadas que nem irmãs siamesas, um atrito, uma picuinha ali e tchau.

 

Eu tinha certeza que um amigo de 8 anos de convivência quase semanal, de viagens certas de reveillon, de almoços de sábados e domingos tradicionais, de saber o que o outro está pensando sem precisar falar uma palavra, ia ser para sempre meu amigo. Uma rusga aconteceu um dia, outros fatos se sucederam, e daí você fica triste de ter a certeza que não quer mais o contato com aquela pessoa

 

Eu tinha certeza que uma amiga de 10 anos ia ficar sempre minha amiga, combinando viagens, fazendo confidências que até a nossos pais a gente não faz, ser nosso porto seguro. Um lance aqui, outra fofoca ali, uma indireta no facebook, um amontoado de informações, daí você vê que é melhor se afastar definitivamente dela. Porquê? Ela deixou de ser sua amiga? Você era cega e não sabia dos defeitos dela?

 

Eu tinha certeza que  uma amiga um pouco mais velha que eu, ia ser minha confidente e segunda mãe. Recebi uma rasteira dela, da pessoa que eu menos imaginava sofrer. Deletei-a completamente e nunca mais deixei entrar em minha vida.

 

Não. A gente nunca deixa de ser amigo do dia para noite. Guardamos mágoas, ressentimentos que na hora parecem bobos, mas depois o tempo é soberano e mostra que aquela bobagem virou um rombo em você. Uma viagem cancelada de última hora. Uma colocação inadequada na frente de outras pessoas. Uma desconfiança de flerte, ainda que inocente,  com seu boy.

 

E daí, um motivo aparentemente besta como uma discussão, um cano de programa, um xingamento leva a cartarse que é o afastamento seguido da reflexão da continuidade ou não da amizade (dar um tempo).

 

Isso é tão doloroso pra mim gente, quanto perder um parente querido, ver a morte de alguém, ver alguém sofrendo injustiça.

 

Não porque sou a vítima. Eu tenho simancol e humildade suficiente para saber que nessa vida, a gente colhe tudo que planta. Ninguém enfia uma arma na nossa cara e nos obriga a escolher quem são nossos amigos, quem divide conosco segredos que jamais contamos a nossos pais, quem partilha conosco as tardes de sábado e os cafés de domingo.

 

O afastamento ocorre por erros da outra pessoa, erros da minha pessoa, fofocas ao redor que é o pior. Mas é um conjunto de fatores que no final culmina para a decisão de não ter mais contato com aquela pessoa, que por anos, meses, foi nossa fiel escudeira, confidente, parceira, colega.

 

 

E isso dói pra burro. A gente fica meses, anos pensando na pessoa e se ela sente nossa falta. Não porque queremos voltar ao que era antes, mas pela consideração. Será que ela nunca se importou comigo? Eu fui um subproduto, completamente descartável para ela? Ela tem outros amigos que agora a suprem e agora eu sou um pé no saco para eles?

 

Nesse momento de dor, o melhor é fazer é tentar pensar de forma racional. Se for sempre pelo emocional, a minhocação será eterna.

 

Eu costumo (na verdade, tento) colocar as ex amizades em “cestos”.

 

  1. amizades que ainda bem que me livrei

É o caso da tal amiga que te deu uma rasteira, e depois veio com a maior cara de pau como se não tivesse feito nada. Seja financeira, no trabalho, no amor, na amizade. Penso que todos erramos e nem sempre somos boas almas. Mas erguer a cabeça, tentar atuar de forma que isso nunca aconteceu e torcer para esfriar, até que a trouxa esqueça, de jeito nenhum. Admita que errou, esclareça o problema, do contrário acabou a confiança e a amizade.

Infelismente, tive 1 ou 2 casos onde tenho completa convicção que houve um mau caratismo tremendo da outra parte, sem esforço de correção. Essas, meus queridos, durmo tranqüila as noites sabendo nesse caso, Deus foi pai.

 

  1. amizades em standby/ erro dos 2 lados

Acredito que exista uma balança onde se mede as cagadas que você fez e recebeu. Nessa balança, está equilibrada.

Você a tratou mal em um evento, cancelou de última hora uma viagem, ou vice versa.

Uma hora, alguma das partes se encheu de vez e partiu para o ataque.

Talvez a amizade ainda continue no facebook, talvez atendemos a eventos de amigos comuns em comum, mas acabou por ora aquela intimidade que amigos tem.

Neste caso, digo o que aprendi nesses 40 anos: só o tempo é soberano.

Só o tempo para me provar que senti falta de minhas amigas, que me afastei por um motivo facilmente perdoável (mas na hora não parecia). E o tempo é soberano. Repito isso como um mantra, porque acredito piamente. Depois de 6 anos, elas me aceitaram de volta. Ouro de verdade não enferruja. Pérola de verdade não enferruja. Amizade que foi por um tempo leal e verdadeira, ninguém esquece.

 

Só o tempo para me mostrar que aquela amiga que temos uma ótima sintonia em jantares, eventos e viagens, não partilha exatamente das mesmas crenças e virtudes. Você é amiga porque também é interesseira, não tire sua parte. Porque vai a eventos bacanas, porque ela tem dinheiro para lhe acompanhar nas viagens que suas amigas pobretonas não podem, para te fazer uma pessoa mais ambiciosa e sonhadora porque ela é bem sucedida e  gente que faz. E daí talvez você não se afaste completamente, mas fecha várias portas de profundidade nessa amizade. E daí acaba um dia esse contato. E você vê que é realmente melhor sem ela. Perde algumas coisas, perde companhia, mas ganha paz.

 

  1. amizades que você perdeu

Confesso: já tive amizades que a culpa maior foi minha de perder. De ter preguiça de pegar o telefone e agendar porque tinha amigos com convivência maior para dar mais atenção, sendo que a vida dela ficou atribulada por conta de uma criança.

É importante seguir em frente? Sem se chacotear com correntes, exalando culpa? Sim. Mas é importante que você não se esqueça delas. Temos que melhorar como ser humano, certo? Vamos continuar errando, porque somos um bicho da porra. Mas a gente tenta.

 

 

Não acho que sou perfeita. Tampouco que exista um ser humano perfeito, iluminado, que um dia não fez uma fofoca venenosa, que não jogou uma indireta ou não foi grossa porque estava num dia ruim. Que não destratou uma amiga justamente porque tinha liberdade de fazer com ela o que não faria com pessoas desconhecidas.

 

Colecionei muitos amigos. Creio também que colecionei alguns inimigos, poucos.

Já passaram por mim pessoas que não se encantaram comigo, me desdenharam, ou se encantaram e depois se decepcionaram, por algum motivo.

 

Ao chegar aos 40 anos, chego com mais certezas que incertezas.

 

  • que a continuidade amizade do outro não depende exclusivamente de você. Mas suas atitudes podem fazer uma boa diferença
  • que mesmo pessoas de sua extrema confiança podem lhe trair
  • que é aceitável ter pessoas dentro do seu círculo de amizade que você pode aceitar, mesmo com caráter e ética duvidosa, desde que lhe faça crescer. Mas cuidado com elas!
  • Que você pode se arrepender sim de amizades desfeitas e que o retorno pode ser doce
  • Que as vezes encerrar uma amizade, ainda bruscamente dói, mas é melhor. O tempo é soberano.
  • Que tão (ou em muitos casos, mais) importante quanto sua família, são seus amigos verdadeiros que estão do seu lado.friendship