Juro para vocês que tem dias que eu não sei se tenho amigos ou inimigos em época de Pandemia.

Com todo mundo confinado por causa deste maledeto vírus (e brinco: não custava ter fervido o morcego antes?) cada um tem suas dores de isolamento. Os pais e mães se virando nos 30 para trabalhar em jornada dupla (ou infinita) e  cuidando dos pimpolhos em tempo integral. Os casados ou de compromisso sério lutando para não acabar seu relacionamento. E os solteiros, como é o meu caso…

Bem, já perdi as contas de quantas vezes minha amiga me liga para perguntar se eu já não cortei os pulsos porque estou em quarentena e… sozinha. Porque ela pelo menos está transando com o bofe namorido… E vejam bem, é minha amiga de anos, não inimiga.

Isso e outros amigos também vieram me questionar, achando que eu estou fingindo sanidade, já que eu adorava dar uma saidinha e rolês. Talvez para eles, sair era o escapismo para fugir da depressão de morar sozinha…

Lógico que o fato de não poder sair para encontrar amigos pessoalmente, ir num barzinho para paquerar, ir num restaurante gostoso me chateia sim. Preferia que não tivesse a pandemia? Lógico.

Mas entendam que para quem já mora sozinha há uns bons 10 anos, a gente constrói um ninho da felicidade onde nós bastamos. Eu não tenho uma mansão na praia com 10 cachorros e gatos. Pelo contrário. Moro em um apê de 60 m2 onde o único ser vivo sou eu e as mosquinhas de alimentos que se proliferam como pragas. Nem um cacto para chamar de meu. A vista então, eu só tenho a frestinha que 2 empreendimentos gigantes me deixaram depois de ter tirado a minha vista mara da Marginal Pinheiros.

Acreditem se quiser, eu mal assisto Netflix e os Canais de TV a Cabo que foram liberados gratuitamente nesta quarentena. Eu admito: não tenho maturidade suficiente para encarar séries da Netflix. Se assisto 1 episódio de uma série que nem é tão boa assim, vou até o dia seguinte, por mais mequetrefe que ela seja. E reclamo que não dormi a noite inteira.

Gosto de ficar no meu lar, que é só meu. O meu quarto tem lençóis delícia de confortáveis, com alguns (ok, talvez mais de 1 dúzia) de bichos de pelúcia que me aquecem nas noites frias, pijamas quentinhos, um difusor potente de óleos essenciais.

Minha cozinha é pequena, mas totalmente equipada para minhas aventuras e tragédias na cozinha. Mas o brigadeiro sempre sai mara.

A minha varanda de 3 m2 tem rede, tem sofá para dormir depois da manguaceira do happy hour virtual, tem cadeira de trabalho quando o sol permite, tem mesinha para jantares a céu quase aberto.

Minha sala tem estação de trabalho digna, tem mesa de jantar (e sim, faço jantares à luz de velas para mim, me julguem) e um sofá retrátil maravilhoso, tanto para assistir meus DVDs de filmes antigos (sim, tenho ainda esta relíquia e adoro!) quanto para treinar meu violão (pobres vizinhos).

Eu tenho lives, cursos (agora muitos gratuitos, aproveitem), happy hours virtuais para escolher, conversa com meus pais quase todos os dias, reunião de família virtual aos domingos, e um guarda roupa enorme me esperando para ser aliviado e doado.

Faz falta alguém para chamar de meu? Sempre fez. Não é agora que será pior. Mas para quem mora sozinha há um bom tempo, resiliência de apreciar o que tem virou lema.

Fiquem tranquilos, amigos compromissados. Não vou me matar porque a solitária solteirona está na quarentena sozinha, rs…. Estou bem. Não fiquem incomodados com isso. Cuidem da vida de vocês e das pessoas próximas e vamos vencer essa quarentena.

Bjos no coração.