
Admito: virei a senhorinha dos cruzeiros. Sim, eu troco a experiência de Airbnbs genuínos, comida local, pelas atividades pasteurizadas e genéricas de um grande navio. Especialmente se for em pleno verão europeu.
Explico: o verão europeu é lindo e gostoso apenas pelo Instagram. Na realidade, é um perrengue formado por multidões de gente com desodorante vencido, lugares superfaturadíssimos sem estrutura decente, e principalmente: um calor de rachar o coco. Mesmo minha mãe que é uma cobra de não sentir calor, admitiu pela primeira vez que estava um “calor infernal” na Itália.
Viajar em pleno Julho ou inicio de agosto para o Continente Europeu nos dias de hoje é pedir para sofrer e gastar. A não ser que você tenha muito dinheiro para torrar, viver de transfers e passeios privativos e ficar apenas em acomodações 5 estrelas, nós, reles mortais, vamos morrer escalando as pirambeiras da Grécia ou da Sardenha em calor de 45 graus sem brisa do Nordeste.
Quando minha mãe manifestou o desejo de fugir do frio de São Paulo (frio que para mim em plena perimenopausa nem faz frio no dedinho mindinho) e passar o aniversário dela no Verão Europeu, eu já tremi nas bases. As notícias já alarmaram o que é um empurra com a barriga em uma situação periclitante para os Europeus: eles não tem maturidade nem estrutura para enfrentar o calor que está aumentando ano a ano por lá.
Casas antigas sem possibilidade de instalação de ar condicionado, cidades que foram projetadas para reter e não diluir o calor, construções que não permitem a brisa fresca que permeia o Nordeste mesmo nas cidades europeias litorâneas. Literalmente a Europa está fritando a cada ano.
E viajando com mamãe prestes a completar 83 anos e sobrinho avoado de 18, a combinação para o desastre estava iminente. Imaginei várias vezes nós 3, mortos, desmaiados, em plena Piazza Salvatore (inventei esse nome) , sendo comidos pelos pombos, porque mamãe se recusou a pagar um taxi de 40 euros por uma corrida de 5 minutos.
Então quando mamãe se animou para fechar um cruzeiro por lá, foi um alívio. Pelo menos mais da metade da viagem estaríamos confortáveis no carpete de ácaros do navio e com ar condicionado potente a todo momento.
Em outras épocas, eu protestaria. Imagina já que estamos pagando uma fortuna pela passagem aérea em pleno verão europeu, trocar a experiência local de hotéis, passeios noturnos, baladinhas, restaurantes locais por passagens instantâneas, amaciadas ( não gourmetizadas) e previsíveis de um grande navio de cruzeiros, para não dizer no imenso impacto ambiental que esses gigantes dos mares aprontam por onde passam? Não vou mentir, para quem já viajou de navio, é só ver o monte de dejetos que eles soltam pela manhã antes de atracar nos portos… é de arrepiar. Também, tanta gente comendo e bebendo o dia inteiro nessa embarcação…
Mas hoje, eu estou ciente de minhas limitações físicas e principalmente, da minha mãe e de meu sobrinho.
Então adquirimos 7 noites no navio MSC World Europa, um dos mais modernos e enormes do mundo, com capacidade para mais de 8.000 pessoas e lá fomos nós embarcar para Barcelona, de onde o navio zarpava.
Na verdade, ele zarpa de todas suas paradas, ao contrário de itinerários do Brasil. Nos 7 dias, teve apenas um dia de navegação e 5 paradas! Todas elas o pessoal podiam embarcar e desembarcar. Para quem embarca e desembarca do mesmo porto, como fomos nós, em Barcelona, foram paradas para conhecer as cidades.
E como foi?
Uma delícia. Admito.
A navegação é bem mais tranquila do que os trajetos no Brasil, pois como o World Europa navega no Mar Mediterrâneo apenas, é bem tranquilo. O bicho é gigantesco, então super estável. Um bom cruzeiro para quem tem medo de enjoar. Até o balancinho na hora de dormir, que até gosto, não teve.
O perrengue do calor só enfrentamos porque descemos em todas as paradas. Era uma delícia voltar do forno e entrar no navio climatizado, e sim, na Europa eles moderam o uso do ar condicionado (nos Estados Unidos e Caribe, eles colocam no modo geladeira, demais até para mim que sou a rainha calorenta).
Nas paradas, provamos alguns petiscos mais baratinhos locais só depois para voltar para a fartura do navio. Devo admitir que a pizza do Navio (alias, Italiana já que a MSC é italiana) tava melhor do que comemos em Napoli, assim como os trapezzinos, cannolis e tiramissus. Mas foram suficientes para encher nossa mala de souvenires. Em Marselha na França, compramos sabonetes de Lavanda, os docinhos Nougat (que parece um torrone nosso) e Calisson (um tipo de marzipã), em Gênova compramos alguns pestos genoveses, em Napoles compramos muitos queijos parmeggiano reggianos (embalados a vácuo) e lindas roupas 100% linho a preços bem módicos, além é claro, dos imãs de cada cidade. Turistas, sempre.
Para quem me pergunta se a experiência de conhecer as cidades é a mesma que você se hospedasse: logicamente que não. Sabe aquela provinha de sorvete que você pega antes de escolher o sabor? É mais ou menos isso. Até porque as paradas do MSC são vapt vupt, porque como companhia low cost de lá, eles são os que menos ficam em tempo nos portos. E ai de você se perder a saída do navio: vai ter que se coçar e arranjar um jeito de chegar até a próxima parada, só com a roupa do corpo e o seu cartão de crédito. Outras armadoras de cruzeiros como a Norwegian e a Celebrity possuem mais tempo de parada nas cidades. Mas o preço também já sobe consideravelmente.
Então deu para conhecer um bairro de Marselha, o Le Panier, que é bem turístico e gracinha, lembrando uma vila de Provence, com suas pirambeiras de paralelepípedos e lojinhas de souvenires, ir para Taormina, me banhar na única oportunidade no mar mediterrâneo e ver que a cidade é realmente gostosa e merece uma futura visita com pernoite, ir para Genova e ver que não, melhor pegar um ferry e ir para outros destinos, e que Napoles apesar de uma bagunça, é uma cidade interessante além de Pompéia.
Foi uma viagem gostosa, com alguns momentos de curiosidades como conhecer rapidamente algumas cidades inéditas em meu repertório, com muitas idas no spa do navio, bebidinhas, comidas, dormimos absurdamente bem (meus companheiros de cabine confirmaram pelo meu ronco persistente. Eu não ouvi nada.)
Sobre o Navio World Europa: novinho, enorme, ele perde em algus aspectos para os navios de porte similar que vão ao Brasil (Grandiosa, Seaview, Virtuosa) e ganha em outros. Em comparação aos menores e mais velhos da cia (Poesia, Orchestra, Musica, Divina, Preziosa), tadinhos, não dá para comparar.
Ele ganha no aspecto de novinho . O buffet é lindo, e eles meio que copiaram algumas coisas de sua rival, a Royal Caribbean. Tem um vão enorme aberto no meio do navio, que é a Promenade (igualzinho da Royal Caribbean). A área da piscina e das áreas comuns tanto internas como externas têm mobiliário muito mais confortável. O navio é tão grande que é uma pena um itinerário de 7 dias com tantas paradas, pois o ideal seria uns 3 dias de navegação para conhecer bem as partes do navio. O parque aquático é enorme, com vários toboáguas (não fomos em nenhum).
Por outro lado, justamente o que era para ser um diferencial positivo acabou sendo um ranço para nós: eles agregaram um monte de opções gastronômicas. Todas pagas adicionais, mesmo para nós, que já pagamos uma fortuna pela experiência do Yacht Club, uma área privada dentro do navio. Explico o yacht em um futuro post, mas depois de pagar uma fortuna , o que menos você quer fazer é pagar mais por experiências que ao meu ver já deveriam ser inclusas.
Eles colocaram mais restaurantes de especialidade (mexicano, os tradicionais japoneses e de carne, espanhol, frutos do mar) e também sorveteria temática, café gourmet, casa de chá, casa de drinks (champagne, gim e tem até um speakeasy). Todos pagos a parte. Uma sacanagem. Apesar de não superfaturados, como a moeda é em euro, a brincadeira não sai barata. Um drink no Bar Secreto o tal do SpeakEasy custa 20 euros mais taxas de 15%, ou seja , quase 150 reais.
Achamos os shows muito bons dessa vez, e eles têm duas opções de espetáculo por noite. As festas são mau o meno, e a única realmente animada é a Festa do Branco. A não ser que você seja realmente muito xóven, abaixo dos 20 anos, raramente vai arranjar um paquera por lá. Vimos alguns brasileiros, mas na área do Yacht Club quase nenhum.
Em suma, o navio entregou tudo: boas noites de sono, boa comida (engordei só 2 kgs), bons serviços e tivemos uma estadia tranquila. Minha única grande reclamação vai para o setor de excursões deles: com medo do calor, das multidões e principalmente, por estar com minha mãezinha, optei 2 vezes por comprar a excursão pela MSC. Superfaturadas, super monótonas. A segunda, em Malta, me achei enganada. Venderam como se fosse um passeio pelo mar, e nada mais era do que um city tour chatíssimo . tive uma conversa com a responsável pelas excursões, mas achei ela tão fraca, que nem insisti. A verdade é que eles cobram mais do que o dobro de um valor cobrado em terra , com a única vantagem de você não ter que se preocupar com nada e ter a certeza que não vai perder o horário da volta do embarque. Eu só compraria novamente se não dominasse o inglês ou o idioma local, se fosse um lugar perigoso, e se tivesse problemas de locomoção. Do contrário, é melhor mesmo se aventurar e pegar por lá mesmo.
Digo isso da experiência que tivemos em Gênova (city tour chato pra caramba), Malta (pior, foi enganosa a propaganda e desistimos do passeio, sem receber nada de volta). E também no ano passado, adquirimos um passeio caríssimo na Jamaica, e era melhor ter ficado no navio. O Beach Club prometido era uma espelunca com praia suja, comida intragável e longas filas, além de uma parada numa loja de souvenir superfaturada. Se tiver um mínimo de esforço e coordenação para não perder a partida do navio, não desperdice seu tempo e dinheiro com as excursões oficiais do navio, pelo menos da MSC.
No dia 31, desembarcamos em Barcelona, cansadíssimos , afinal o dia do desembarque é sempre uma humilhação: deixar a cabine as 07 da matina ( o que significa para nós acordarmos as 05, já que mamãe tem seu ritual de preparação e faz um barulho por onde passa), café da manhã apressado, espera e fila no desembarque.
Conseguimos pegar um taxi rapidinho, e uma dica: em Barcelona, os taxistas são geralmente honestos, e as corridas não saem mais do que máximo de 30% mais do que o Uber, que também funciona bem por lá.
Em Barcelona, tivemos a sorte de pegar um calor dos infernos só um dia (mas foi 45 graus de sensação térmica) e demais dias amenos a 30 graus. Lá , fizemos o tal Hop in Hop off (chato que doi, mas confortável) , e não entramos na Sagrada Família. Foi o bastante olhar de fora. Fizemos o nosso tipo de turismo: ir nos restaurantes e comer tapas, mamãe foi em todas as Zaras e Kikos possíveis, compramos imãs. Em suma, uma viagem gostosa, perfeita e inesquecível em pequena família.
Recomendo Europa em pleno verão? Não. Mas se for feito no navio e principalmente num novinho como o World Europe, fica muito mais agradável.