Estes dias não tem sido fáceis. Pensando bem, tem sido tempos difíceis, talvez um dos mais difíceis de minha vida até agora.

No início do ano, meu pai voltou a ter desmaios, seguidos de convulsões, que duravam 10 segundos, como se um exorcista o tivesse possuído, e logo depois, ele recobrava os sentidos, como se nada tivesse acontecido.

Resolvemos internar ele no Albert Einstein, um dos mais renomados hospitais do país. Assessorado por seu fidelizado médico geriatra, Dr. Alberto, ele foi submetido a uma bateria de exames, que o revirou de ponta cabeça. Não acharam nada. Após 10 dias extenuantes no hospital, ele foi liberado com a promessa de melhora e cessão dos desmaios com troca de medicamentos (ele toma para tudo, desde diabetes até pressão).

Foram 5 dias de euforia pós internação, até o próximo desmaio e uma nova ida ao hospital, para mais exames. Após mais 10 dias de internação sem respostas, o pior dos medos se concretizou: uma pequena massa indeterminada, nas paredes do estômago, sucedida de uma outra descoberta: mais uma massa do lado do rim. Metástase de câncer. Não super espalhada, não um tumor inoperável, mas ainda assim um estágio 4.

É a pior notícia possível que podemos receber. De dias anteriores almoçando em lugares gostosos, talvez com algum desconforto de saúde que precedia um mal maior, mas não esperamos isso.

Estamos passando no momento pelos estágios de repulsa e aceitação: raiva porque não foi diagnosticado antes (os desmaios vem desde julho do ano passado), dúvidas (os sintomas pioraram muito depois que ele foi internado e apareceram apenas depois de estar no hospital) , muito medo do futuro (ele vai sobreviver? Como ficará minha mãe? e decisões bruscas repentinas (tratamento com quimioterapia, cirurgia ou não, retirada ou controle dos tumores).

Agora, estamos na expectativa de reação boa a quimioterapia. Estamos com o cú na mão para falar a verdade.

E daí eu me coloco a liberdade de fazer uma carta aberta aos conhecidos e amigos que sabem da situação. E para quem estiver lendo, que também tenha uma iluminação se acontecer com sua família ou com seus amigos próximos.

Primeiro:  a situação é horrível. Não temos vontade de comer, nos sentimos mal quando assistimos um filme para nos distrair, porque os pensamentos negativos vem toda hora. Portanto, não fique ligando ou mandando mensagem toda semana ou a cada 3 dias perguntando se melhorou. Se eu estiver melhor, eu entro em contato. Talvez tenha gente que gosta, que precisa da atenção alheia. Eu não.

Segundo: não fique perguntando detalhes do paciente se você não tem como ajudar efetivamente. Se ele está com os melhores médicos em um bom hospital, não é você sabichão ou sabichona que vai poder aconselhar. Na maior parte dos casos, as pessoas perguntam, a gente responde coisas que nos lembram que a situação é difícil para daí a pessoa terminar com um: “que triste” ou “que merda, heim”. Quantas vezes me segurei para não enviar o emoji do dedo do meio.

Terceiro: não queira achar que vai me confortar mandando vídeo engraçadinho, coisas do cotidiano, fofocas alheias. Eu tô cagando para tudo isso agora.  Tudo isso irrita para falar a verdade.

Quero deixar claro que isso vem de pessoas queridas, que querem de verdade o nosso bem. Creio que em situações que não eram de minha família, acabei fazendo o mesmo para outras pessoas.

A gente quer que nosso amigo saiba que estamos preocupados e que torcemos pelo bem e pela recuperação do ente querido (tá, nem sempre. Estou vendo por vezes um certo prazer da desgraça alheia acontecer, um voyeurismo da doença que bom, que não é com eles ainda). A gente quer que ele saiba que estamos aqui. Mas no fundo, o que ele pode fazer por nós? O quê? Porra nenhuma. Como eu também não pude fazer no passado.

Então, em vez de me cutucar a todo momento, perguntando como ele está, e depois lamentando que sim, essa situação é uma merda, coisa que não preciso saber e replicar, me deixe em paz. Quando eu quiser, eu ligo, eu peço ajuda, eu peço um momento de descontração num cafezinho ou um jantar. E apenas me ouça.

Meu pai está fazendo o mesmo: selecionando quem ele vai falar. Muitos amigos que há anos não falavam com ele agora estão atrás, querendo saber, ou dar palavras de conforto. A gente sente. Tem gente que gosta de uma desgraça alheia. Se faz de cordeiro bonzinho, bobinho, e se alimenta que o outro está pior que você. Às vezes são até amigos, as vezes não, podem ser até familiares, infelizmente.

Ele é esperto: desconversa, melhor não. Sabe que o outro no final vai soltar um: “fulano teve isso e sofreu muito”. Ser humano às vezes é uma podridão né?

Pior é quando a pessoa diz: “me avisa heim”. Já tive vontade de falar: “bem, se ele morrer, eu te aviso. Se for para a UTI também? O que você afinal quer?”

Contudo, acredito que a maioria, assim como eu, acaba sendo invasivo no intuito de demonstrar afetividade. Dai finalizo: neste momento, não é o mais importante. É paz. Preciso canalizar minhas forças pela recuperação e positividade. Pelo menos para mim e para muitas pessoas. Obrigada. Quando tiver mais noticias, aviso. Sejam boas ou ruins. E principalmente quando eu quiser. Minha família, meus sentimentos, meu saco.